OFS e o Espelho da Perfeição: reflexão sobre o capítulo XV

934

Capítulo XV

Sobre evitar a maciez e a abundância de túnicas e ter paciência nas necessidades.

1 Revestido da força do alto (cf. Lc 24,49), este homem se aquecia mais internamente com o fogo divino do que exterior­mente com a roupa do corpo. Execrava quem se vestia triplamente ou, na Ordem, usasse vestes macias sem necessidade. 2 Considerava si­nal de espírito extinto (cf. 1Ts 5,19) uma necessidade provocada pelo prazer e não pela razão. Dizia que quando “o espírito é mor­no e, pouco a pouco, a graça esfria, é necessário que a carne e o sangue (cf. Gl 1,16; Mt 16,17) procurem o que lhes é próprio” (cf. FI 2,21).

3 E dizia: “O que resta, quando a alma não tem delícias espirituais, senão que a carne volte para as suas? Então, o apetite animal se veste de necessidades, e o senso carnal forma a consciência. 4 Se meu irmão tiver uma verdadeira necessidade e correr logo a satisfazê-la, que recompensa terá (cf. Gn 29,15)? Apresentou-se uma ocasião de mérito, mas ele provou com acinte que não lhe agradava. Pois, não suportar com paciência as privações outra coisa não é senão voltar para o Egito”.

Enfim, em ocasião alguma queria que os frades tivessem mais do que duas túnicas, ainda que permitisse que fossem remendadas com retalhos. 6 Dizia ter horror aos tecidos finos e repreendia seve­ramente os que faziam o contrário e, para confundi-los com seu exemplo, sobre sua túnica costurava sempre um saco (cf. Jó 16,16) grosseiro. Por isso, até na morte mandou que a túnica exe­quial fosse coberta com um saco. 7 Mas concedia aos frades forçados pela doença ou outra necessidade que vestissem outra túnica macia sobre a pele, contanto que por fora sempre se preservasse a aspereza e a vileza no hábito. 8 Pois dizia com a maior dor: “Ainda se relaxará tanto a austeridade, e dominará a moleza que os filhos de um pobre pai não se envergonharão de usar vestes de escarlate, mudando apenas a cor”.

Reflexão:

Esse texto trata sobre a diferença entre a necessidade e o desejo. Ou seja, utiliza a necessidade de cobrir o corpo para tratar da ideia de que quando não há uma vida de oração ou de meditação da Palavra e cultivo do interior as pessoas passam a buscar satisfação nas belezas exteriores e no conforto desnecessário, ou seja no desejo.

Para isso, o autor chama a atenção de que Francisco é o exemplo, pois, devido à sua espiritualidade, não sentia o desejo de vestir-se com vestes triplas e macias. O texto não faz um discurso radicalizado, pois cita que existem pessoas que necessitam vestir-se de forma adequada por limitações físicas. Além disso, hoje sabemos que as pessoas possuem características diferentes e algumas precisam se aquecer mais que as outras, além de ter aquelas que têm alergias em relação a algum tipo de tecido e tudo o mais.

Porém, em um mundo onde pessoas passam fome, não tem onde morar, não tem trabalho, são refugiadas, não têm acesso a saneamento básico e água potável, comprar bolsas, sapatos, perfumes, casacos e vestuários de forma geral com valores astronômicos é uma contradição.

Essa crítica do autor, baseada na visão do fundador, está ligada ao contexto do crescimento comercial do período em que o movimento franciscano surgiu e se desenvolveu. A nobreza e os comerciantes ditavam a moda com tecidos e adereços vindos de vários lugares diferentes e, certamente, os frades, que viviam nas cidades, acabavam influenciados pelas novas modas e a necessidade de estarem mais bem vestidos, inclusive nas celebrações litúrgicas.

A prioridade em satisfazer os desejos do corpo é condenada no texto, pois ela não faz parte do caminho do cristão. Ele cita a volta para o Egito querendo mostrar que era um local de segurança para o Cristo. Local em que não teve privações. Ele teve que sair de lá, ou seja, colocar-se em perigo, para cumprir sua missão.

Segundo o autor, a austeridade é o caminho para a salvação. Quando nos deixamos levar, em nossa época, pelo consumismo desenfreado que caracteriza nossa sociedade, acabamos abandonando o nosso caminho. Além disso, ao abandonarem essa característica, os filhos de São Francisco o estariam envergonhando.

Nossa vida franciscana deveria ser uma vida baseada na necessidade e não no desejo. Ou seja, o segundo nos leva a realizar escolhas equivocadas que nos distanciarão de nossa profissão. A necessidade é o que nos fará chegar perto de Deus.

Para meditar:

1 – Como temos dirigido nosso consumo? Consumimos para suprir necessidades, ou somos direcionados pelo desejo?

2 – E em nossa vida fraterna, como tem sido realizado o consumo? Será que tem sido feito a partir de uma reflexão sobre a necessidade dos irmãos e irmãs e do entorno em que vivemos?

Texto de Jefferson Eduardo dos Santos Machado – Coordenador de Formação da Fraternidade Nossa Senhora Aparecida – Nilópolis (RJ)

Fonte: Ordem Franciscana do Brasil

DEIXE UM COMENTÁRIO

Deixe seu comentário
Coloque seu nome aqui