“Pandemia e transformações – entre necessidades, expectativas e realidade”

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“A gente precisa resgatar a fé cristã com coragem para reconhecer quais são as causas da crise”. Essa foi uma das mensagens deixadas pelo filósofo e teólogo leigo católico, Jung Mo Sung, durante a videoconferência desta terça-feira, 14 de julho, no Encontro dos frades que atuam na Frente de Evangelização das Paróquias, Santuários e Centros de Acolhimento. O professor do programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, Jung Mo, abordou o tema “Pandemia e transformações – entre necessidades, expectativas e realidade”.

Os frades foram saudados pelo secretário de Evangelização da Província da Imaculada Conceição, Frei Gustavo Medella, que convidou o coordenador desta Frente, Frei Antonio Michels, para conduzir o momento de oração, quando se fez memória a Frei Leonir Ansolin, falecido ontem (13). “Ele foi um bravo na vida e na doença, sem perder a serenidade, a tranquilidade, o espírito de gratidão. Nunca se ouvia da parte dele uma reclamação”, lembrou Frei Medella. A oração teve início cantando o salmo 23, expressando “a certeza que nosso irmão está nas mãos de Deus”.

Segundo Frei Medella, esse tempo de pandemia veio, parece, virar a página de uma realidade que vem sendo apresentada há muito tempo nos meios acadêmicos e até nos meios eclesiais: não vivemos uma “época de mudança”, mas uma “mudança de época”. “Parece que essa mudança teve o arranque final nesse tempo de pandemia para nos mostrar que estamos, de fato, entrando numa nova época. Aí, surgem outros jargões, como ‘novo normal’, ‘não podemos falar em retomada, mas em recomeço’ etc. Esse tempo nos faz olhar com atenção algumas provocações: há necessidades de mudanças, há coisas que precisam necessariamente mudar para que possamos até subsistir e existir como humanidade. Há também as expectativas, aquilo que esperamos mudar: ‘esperamos que depois desta pandemia, surja uma humanidade melhor, um humano melhor’. São expectativas justas e importantes. E o que de fato temos percebido a partir dos nossos sentidos, da nossa razão, daquilo que observamos, que está mudando, que está se transformando?”, questionou o frade.

Para o assessor, Professor Jung Mo Sung, a história sempre conviveu com pandemias ou pestes. “A peste negra matou quase 30% da população europeia e marcou profundamente a história”, disse, referindo-se com estranheza o fato de, seja esquerda ou direita, estarem usando a metáfora do apocalipse para definir essa pandemia. “Compreender o Apocalipse como algo que Deus vai acabar com o mundo, é não compreender o que era o livro do Apocalipse no Império Romano”, questionou. “Mas de qualquer jeito vivemos uma época de muito medo”, observou. Ele fez analogia do medo citando o Evangelho de Mateus 8, 26, quando Jesus diz: “Por que estais com tanto medo, homens de pouca fé”. “O que é fé? A fé não é crença na existência Deus, mas a fé nessa frase se opõe ao medo. A fé é a coragem de enfrentar a vida”, disse.

Jung Mo Sung explicou que, antes de falar de pandemia, era preciso falar mais do contexto que estamos vivendo. “É que, na pandemia, aumentou tudo”, frisou. “Há 50 anos, a gente vem experimentando mudanças importantes, só que a gente foi se acostumando. O pessoal diz assim: ‘Quando você coloca a rã na água morna, ela não pula; vai se acostumando e morre. Se colocar, de repente, a água quente, ela salta fora’. Nós estávamos acostumados com um processo de mudança e, de repente, veio a pandemia e tudo explodiu. Mas a gente tem que entender que esse processo começou bem antes”.

O professor partiu da globalização e do avanço tecnológico para descrever essa mudança. “Altera profundamente o sistema econômico de uma região: muda preços, as formas de trabalhar etc. A gente vai ver que as fábricas do Brasil eram lugares estáveis. O jovem entrava na empresa e lá tinha a vida definida. Essa segurança desaparece com a globalização. As fábricas desaparecem. Essa condição de vida organizada vai desaparecendo. Isso vai mudando, e a gente não consegue perceber, claramente, uma noção de tempo e espaço”, explicou.

Nessa situação, o acúmulo de riquezas é uma coisa brutal. “Nós temos hoje pessoas com patrimônio de 100 bilhões de dólares. Antes não existia isso. Compram-se empresas e se fazem negócios em bilhões. Uma grande parcela de milionários tem seus aviões. Até pastores importantes têm vários aviões a jato. E por que esse pastor precisa? Ele quer isso porque é sinal de alguma coisa. Para um pastor, há 30 anos, isso não tinha o menor sentido. Hoje passou a ser algo de orgulho da igreja”, constatou, lembrando que esse aumento de riqueza traz um grande aumento da desigualdade social.

Segundo Jung Mo Sung, quem não tem essas tecnologias, esse tipo de conhecimento, “não tem mérito para competir, portanto tem direito à pobreza”. “E aos poucos nós fomos acostumando com essa ideia. Trinta anos atrás nós não aceitávamos isso”, garante.

Segundo ele, não dá para entender a mudança econômica sem entender como se mudou culturalmente a questão da sensibilidade frente à desigualdade e à pobreza. “Isso traz um outro problema. Os pais, diante dos filhos que pedem para comprar coisas – porque nessa cultura você é reconhecido na medida que você compra -, há uma frustração profunda de fracasso: ‘Eu sou incompetente, fracassado. Não consigo comprar nada para os meus filhos!’ E isso cria um mal-estar que vai levar também à agressividade, porque a frustração aparece na forma da agressividade. Isso também leva ao aumento de violência familiar. As crianças também entram nesse desejo. Como vou comprar isso, frequentando a escola e me formando?. ‘Mas pelo diploma da escola que tenho, vou ganhar o salário mínimo. Então, para que vou estudar?’ E aí vem o ‘boom’ do aumento da agressividade entre as crianças, que gera mais violência, que leva ao trabalho ilegal”, avalia.

Outro ponto que destacou – que é de uma profunda transformação cultural, não ligada diretamente à economia, mas tem a ver – é o surgimento de movimentos chamados de identidade. “O que nós temos novo na história de movimentos?”, pergunta. Segundo ele, começa no século 19, com o boom do movimento dos operários. Depois desse movimento, surge o movimento das mulheres de ter direito ao voto. Começa nos EUA e vai ampliando. Nas décadas de 50 e 60, esse movimento das mulheres vai ampliando e vemos os direitos das mulheres: ‘nós, mulheres não somos inferiores aos homens, somos diferentes’. Isso vai desembocar na discussão do feminismo. Ao lado disso, outro grupo também disse que tem direitos. ‘Nós, gays, também temos direitos de ser tratados como normais’.

Esses direitos, segundo o palestrante, surgem do princípio de que todos os cidadãos são iguais perante a lei; e no caso dos não cidadãos, no princípio de que todos seres humanos pertencem à mesma espécie humana. “Qual é a reação do movimento neoliberal? Ele vai dizer não existe dignidade humana, não existem direitos humanos. O direito surge do contrato. O mercado é o espaço onde estabelece o contrato. O rico diz: por que tenho que pagar imposto para dar escola, comida, para o pobre que é incompetente? O imposto é injustiça. O Estado tem que usar dinheiro dos impostos para as pessoas que pagam e não para as pessoas que recebem ajuda e não pagam. Tirar dinheiro meu para dar para pobre é injustiça”, explicou. Em outras palavras, a justiça social é para ele uma grande injustiça para com pessoas que ganharam a sua riqueza de forma meritória segundo os critérios e leis do mercado livre.

Para Jung Mo Sung, hoje temos duas culturas conflitantes: o mundo liberal ou moderno se dividia entre os marxistas e capitalistas, mas os dois grupos estavam de acordo que todo ser humano tem direito a alguma coisa.

Nos últimos 20 anos, e mais agora nos últimos 10 anos, surgiu uma aliança nova. “Isso vai aparecer claramente na eleição de Hilary Clinton com Trump. Hilary fez aliança com setores de identidade – mulheres, gays, imigrantes e negros – junto com neoliberalismo moderno globalizado, não com os pobres. E Trump fez uma aliança com setores do neoliberalismo e com o conservadorismo religioso. E ai ele defendia brancos, famílias tradicionais, e uma economia de concentração de riquezas só nos Estados Unidos. E no Brasil tivemos Bolsonaro, que fez essa aliança neoliberal com Paulo Guedes, e o grupo que associa família tradicional com concepção apocalíptica da Bíblia. Para esse grupo, o mundo não tem jeito e única forma de sair e resolver os problemas é a segunda volta de Jesus. E por que demora a volta de Jesus? Porque tem uns anticristos que não aceitam de Jesus. E dizem: quando vão aparecer os sinais da vinda de Jesus: quando aparecer a luta entre o bem e o mal. Para esse grupo, quanto mais violência, mais a vinda de Jesus será apressada. Quanto mais guerra, mais solução”, ensina.

Segundo Jung Mo, Sung vivemos uma “confusão” no mundo. Mas para ele, nem tudo está perdido. “E aí, ao invés de dizer que eles estão errados, é tentar entender por que o outro pensa assim. Por que o outro está pensando tão diferente? Nesse sentido, acho que entender hoje o medo, a insegurança, é fundamental”. E concluiu: “A gente precisa resgatar a fé cristã com coragem para reconhecer quais são as causas da crise”.

Para quem quiser aprofundar mais no tema, dois livros recentes do autor: “Idolatria do Dinheiro e Direitos Humanos”, editado pela Paulus; e “Direitos Humanos e Amor ao Próximo”, em parceria com Ivone Gebara.

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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