Clara, fonte de acolhimento e reverência, aprendeu dos pobres que a partilha é dom maior

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Quem é esta mulher que ao longo de oito séculos continua viva clareando nosso caminhar e com sua humildade, simplicidade e ousadia ainda encanta o mundo? “Clara ternura de Deus no meio dos pobres, sinal amoroso. Clara opção pela vida, dom, eucaristia, a serviço do povo”.

Ela é a nossa irmã Clara cuja festa mais uma vez celebramos. Mulher terna, forte, ousada, capaz de conduzir as pessoas ao coração de Deus. Na Regra, no Testamento e no Privilégio da Pobreza encontramos algo novo, belo e de grande frescor. Enquanto a pobreza evangélica, nas Ordens religiosas de então, tinha como modelo a comunidade dos Atos dos Apóstolos, a pobreza em Santa Clara, é consequência de sua identificação com o Cristo Pobre.

Para Clara de Assis, seguidora fiel da “intuição” original de Francisco, bastava o Evangelho como luz e norma. Mostrou-se ávida aprendiz da pobreza de Jesus. Uma pobreza na qual a origem é a pessoa de Jesus e cuja consequência é o seu seguimento. Uma pobreza cheia de ternura, calor, perfume, proximidade, caridade. Demostrava isso entre outros, no grande contentamento com que recebia os pobres de Javé, em São Damião. Para ela, eles não eram pedintes que amolavam o sossego da clausura, mas eram os mestres dos quais se aprendia o modo de ser pobre. “Devem estar satisfeitos quando estão no meio de gente comum e desprezada, de pobres e fracos, enfermos e leprosos e mendigos de rua” (Regra Não-Bulada 9,3).

Clara, como discípula do Poverello, parece superá-lo, no tema da pobreza tanto pela clareza, quanto pela radicalidade diante da Igreja que queria obrigar-lhe outro caminho; porém, em nada deixou-se contaminar pelo rigorismo estéril da época. Com a longa demora da aprovação da Regra, ela, para garantir a vivência da pobreza de Jesus, buscou aprovação do papa para viver o Privilégio da Pobreza. Este, noutras palavras, pode ser chamado de o ‘privilégio de não ter privilégio’. Atitude que hoje nos convoca a silenciar, escutar, fazer-se carne em nossas entranhas onde todas e cada uma possa se perguntar: O que isso diz para nós hoje em tempos de reorganização? Em tempos de pandemia? Que privilégios precisamos deixar de ter para sermos fiéis a Jesus Pobre e crucificado?

Ela, nossa irmã Clara, atenta aos apelos e clamores dos diferentes contextos e aberta à necessidade de mudar a forma de organização, não hesita em convocar suas irmãs para um novo jeito de viver a fim de atender melhor a missão para qual ela e suas irmãs são chamadas. Com serenidade enfrenta os desafios e conflitos e mantem a fidelidade ao projeto original atendendo as novas exigências da realidade.

Assim, a irmandade do mosteiro, por exemplo, é organizada de forma participativa onde a voz do Espírito se manifesta sabiamente em cada uma, inclusive na mais jovem… Esta abertura ao Espírito que sopra onde quer, continua hoje pedindo de nós uma resposta significativa frente aos clamores de cada contexto. Oxalá nos deixemos conduzir nesta caminhada.

Que o testemunho de Clara nos motive a olhar para nossas irmãs e irmãos com ternura, compaixão, misericórdia, despertando um novo sentido à vida e a vivencia do que diz nossa forma de vida – “Vivemos no meio do povo como peregrinas, em simplicidade, alegria e coragem. Assumimos a condição dos pobres e, juntas, aprendemos a vivência dos valores evangélicos na construção da justiça e da paz, testemunhando a esperança cristã e sendo para o mundo sinal de amor fraterno” (FV 29).

Conduzidas pela Divina Sabedoria, busquemos abertas e sensíveis reinventar caminhos que este novo tempo exige: estar junto aos mais pobres como bem nos convoca o Papa Francisco.

Na alegria e irmandade nos unamos a Província Santa Clara de Assis que celebra sua madroeira… Que cada irmã siga “confiante e alegre avançando com cuidado pelo caminho da bem-aventurança”. Nosso abraço de festa e de feliz conivência neste dia de muitas bênçãos …

Irmã Rosali Ines Paloschi

Fonte: Congregação das Irmãs Catequistas Franciscanas

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