Entrevista: A proteção contra a violência doméstica, com Raquel Narciso, CDVida

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RAQUEL DA SILVA NARCISO

Natural de Nova Iguaçu/RJ, é formada em Serviço Social – UFRJ, pós-graduanda em Politicas Públicas de Enfrentamento a Violência Contra a Mulher – PUC/RJ. Atualmente coordena o Centro de Defesa da Vida Irmã Hedwiges Rossi, em Duque de Caxias/RJ, instituição pioneira no atendimento especializado a mulher em situação de Violência da Baixada Fluminense/RJ. Conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Duque de Caxias, onde coordena a comissão de enfrentamento à violência contra a mulher. Participa da Paróquia São Francisco de Assis, em Duque de Caxias.

 

1. Qual o impacto que o Centro de Defesa pela Vida promove na sociedade?

O Centro de Defesa da Vida Irmã Hedwiges Rossi – CDVida promove um impacto positivo na sociedade por meio de suas atividades de prevenção, denúncia e visibilidade das questões que envolvem a violência doméstica e familiar contra a mulher.

O CDVida já realizou cerca de 20 mil atendimentos ao longo desses 24 anos de atuação, impactando a vida de aproximadamente 2.647 mulheres em situação de violência. Esse trabalho é fundamental para a garantia dos direitos e da dignidade dessas mulheres, bem como para a promoção da igualdade de gênero e o combate à violência contra a mulher.

No início do projeto em 1998, logo foi observado que a dependência financeira e pobreza são barreiras no rompimento do ciclo da violência, por isso implementou-se o Projeto de Geração de Trabalho e Renda, com ele contribuímos para que aproximadamente até hoje cerca de 1.900 mulheres gerassem renda e alcançassem maior autonomia financeira. Essa iniciativa é de extrema importância para a promoção da igualdade de gênero e para o fortalecimento da economia solidária em nossa comunidade.

Ao longo do tempo, nossas iniciativas de formação como cursos, palestras e rodas de conversa já alcançaram cerca de 16.408 pessoas, contribuindo para a sensibilização e conscientização da sociedade em relação a esse grave problema. Esse é um passo importante para a construção de uma cultura de paz e igualdade de gênero em nossa comunidade.

Temos desempenhado um papel fundamental na melhoria da qualidade de vida dos munícipes de Duque de Caxias. Uma de nossas principais contribuições foi o incentivo à construção de espaços de discussão e deliberação, como o Fórum de Direito da Mulher, o Fórum Municipal de Economia Solidária e o Conselho Municipal de Direitos da Mulher. Foi graças à participação de instituições como o CDVida e a Universidade UNIGRANRIO que esses espaços foram criados e hoje são fundamentais para que as mulheres tenham representatividade política e social, uma voz ativa na tomada de decisões que afetam suas vidas e comunidades, bem como no fortalecimento da economia solidária em nossa região.

Além disso, o CDVida também tem incentivado e motivado a população caxiense a participar dos espaços de controle social. Em parceria com o movimento de mulheres do município, lutamos pela aprovação e efetivação do I Plano Municipal de Políticas Públicas para Mulheres, que foi aprovado em 2016 e representa um importante passo para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Estamos comprometidas em continuar lutando pelos direitos das mulheres e pelo fortalecimento da democracia em nossa comunidade.

Ao longo de sua história, o CDVida tem sido um importante agente de transformação social em Duque de Caxias, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e livre de violência.

2. Nos últimos anos os dados de violência contra a mulher cresceram exponencialmente, especialmente no período da pandemia. Quais as metodologias de informação, prevenção, combate e suporte às mulheres o Centro oferece?

Desde o início da pandemia, o número de mulheres atendidas pelo CDVida aumentou em 50%, refletindo o agravamento da situação de violência, saúde mental, desemprego e vulnerabilidade social. Infelizmente, também notamos um aumento na misoginia, o que aumenta os riscos de feminicídio. Para atender a demanda, adotamos a modalidade online para realizar atendimentos criando um número de plantão através do WhatsApp. Realizamos formações e encontros através de aplicativos e plataformas digitais. Investimos em comunicação estratégica nas redes sociais e criamos o site do CDVida (cdvida.org.br) para aumentar a divulgação de informações sobre prevenção e enfrentamento à violência contra a mulher e facilitar o acesso das mulheres aos nossos serviços. Além disso, criamos a campanha SOS Mulher, para combater a fome e ajudar as mulheres e suas famílias a terem acesso à alimentação adequada.

3. Diante das várias parcerias realizadas, quais foram e podem ser realizadas com a Família Franciscana (JUFRA, OFS, Vida Religiosa Consagrada)?

O CDVida tem estabelecido parcerias com diversas organizações e entidades, e a Família Franciscana é uma delas. A JUFRA, a OFS e a Vida Religiosa Consagrada são importantes aliados na luta contra a violência de gênero, e podem contribuir de diversas formas.

Uma das possíveis parcerias seria a realização de campanhas de conscientização e prevenção da violência contra a mulher, em conjunto com as pastorais e grupos de reflexão das comunidades religiosas. A JUFRA, por exemplo, poderia realizar ações junto a jovens e adolescentes para discutir questões relacionadas ao respeito e igualdade de gênero.

Algumas Congregações de Vida Religiosa Consagrada já apoiam iniciativas  especializadas no acolhimento e apoio à pessoas em situação de violência, como o CDVida que foi fundado e é presidido por uma Irmã Catequista Franciscana. É importante oferecer seus conhecimentos e articulação com possíveis parceiros, pois um grande desafio das organizações sociais é a sustentabilidade financeira.

Além disso, a família francisclariana pode colaborar através da SEFRAS com apoio direto a essas iniciativas ou com campanhas de doações de alimentos, roupas e outros itens de necessidade básica para as mulheres atendidas pelo CDVida, especialmente em momentos de crise como a pandemia que ainda estamos enfrentando.

Importante também ressaltar que a defesa da vida e da fraternidade perpassa pela luta por efetivação de direitos e políticas públicas.

Em resumo, as parcerias com a Família Francisclariana podem contribuir
significativamente para a promoção da cultura de paz e não violência, bem como para o fortalecimento das ações do CDVida no enfrentamento à violência de gênero.

4. Em muitos espaços fomentam a submissão da mulher nas mais diversas relações: familiares, eclesiais e profissionais. Como o Centro capacita sobre o empoderamento político feminino?

O CDVida promove capacitações e atividades que visam o empoderamento político feminino, como palestras, cursos e seminários que abordam temas relacionados à igualdade de gênero, direitos das mulheres e participação feminina em espaços de poder e decisão.

Além disso, o CDVida também incentiva e motiva a população, especialmente as mulheres, a participarem dos espaços de controle social, como conselhos, fóruns e comitês, que são importantes para a elaboração e fiscalização de políticas públicas voltadas para as mulheres.

Dessa forma, o CDVida busca contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, onde as mulheres possam exercer plenamente sua cidadania e participação política, sem serem submetidas a relações abusivas e desiguais.

5. Poderia comentar sobre o Ciclo da Violência Doméstica e o seu rompimento?

O Ciclo da Violência Doméstica é um padrão que descreve como a violência pode acontecer em um relacionamento abusivo. É composto por três fases: tensão, explosão e lua-de-mel.

Na primeira fase, de tensão, ocorre um aumento da tensão, ansiedade e medo na vítima, muitas vezes desencadeado por comportamentos abusivos do agressor, como ameaças verbais, humilhações e agressões físicas menores.

Na segunda fase, de explosão, ocorre o pico da violência, com agressões físicas e/ou sexuais, sendo a fase mais perigosa e de maior risco para a vítima.

Por fim, na terceira fase, de lua-de-mel, o agressor pode apresentar arrependimento, desculpas e comportamentos carinhosos, em uma tentativa de reconciliação e de manter a vítima no relacionamento abusivo.

Para romper esse ciclo, é necessário quebrar o silêncio e buscar ajuda. A vítima pode procurar a rede de apoio, como amigos, familiares, instituições de apoio e órgãos de proteção à mulher, como a delegacia especializada, o Ministério Público e a Defensoria Pública.

É importante que a vítima saiba que não está sozinha e que existem profissionais capacitados para auxiliá-la em todas as etapas do processo de rompimento do ciclo da violência. Além disso, é fundamental que a sociedade se mobilize na luta pelo fim da violência contra às mulheres, através da conscientização, da denúncia de casos de violência e da pressão por políticas públicas efetivas de proteção e prevenção.

6. Como iniciar em nossas realidades uma rede de apoio de proteção contra à violência doméstica?

Iniciar uma rede de apoio de proteção contra a violência doméstica é uma iniciativa importante e necessária para proteger as mulheres que são vítimas de violência em nossas comunidades. Algumas etapas importantes para iniciar uma rede de apoio são:

Sensibilização: é importante que as pessoas compreendam a gravidade da violência doméstica e a importância de se criar uma rede de apoio para combatê-la. Realizar campanhas de conscientização, palestras e debates são algumas das formas de sensibilizar a comunidade sobre a violência doméstica e a necessidade de se criar uma rede de apoio.

Identificação dos recursos disponíveis: é importante mapear os recursos
disponíveis na comunidade, como serviços de saúde, assistência social, delegacias, defensorias públicas, organizações da sociedade civil, grupos religiosos, entre outros.

Articulação dos recursos: é preciso articular os recursos disponíveis de forma a criar uma rede de apoio efetiva para as mulheres vítimas de violência. É necessário estabelecer parcerias e acordos de cooperação entre os diferentes atores envolvidos, para garantir uma resposta integrada e coordenada.

Capacitação: torna-se fundamental capacitar os profissionais que atuam na rede de apoio, para que possam prestar um atendimento adequado e eficiente às mulheres vítimas de violência. Isso inclui capacitações sobre o ciclo da violência, o atendimento às vítimas, a elaboração de medidas protetivas, entre outros temas relevantes.

Monitoramento e avaliação: é importante monitorar e avaliar a rede de apoio de forma contínua, para identificar pontos fortes e fracos e realizar ajustes necessários. Isso pode ser feito através de reuniões periódicas, relatórios de atividades, entre outras formas de acompanhamento e avaliação.

Iniciar uma rede de apoio de proteção contra a violência doméstica pode ser um desafio, mas é uma iniciativa extremamente importante para proteger as mulheres em nossas comunidades e garantir uma vida digna e livre de violência para todas.

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