Entrevista: O compromisso francisclariano com o diálogo à luz da CFE 2021 com Irmã Glenda Sábio, FPCC

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Irmã Glenda Sabio, FPCC

Irmã Franciscana da Penitência e Caridade Cristã. Acadêmica de Enfermagem da UNISINOS. Feminista, envolvida com a Pastoral da Juventude; Economia de Francisco e Clara no RS; Coletivo Empatia Clarifranciscana e Rede um Grito pela Vida.

  1. Irmã a resistência dessa edição da CFE 2021 foi enorme. Quanto Família Franciscana em seus espaços de missão, muitas formações, encontros, lives abordaram a temática. Em sua realidade, como foi?

A Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano trazendo ao centro “Fraternidade e Diálogo: Dom e Compromisso” revelou a grande dificuldade que temos em dialogar. Comprometer-se com o Diálogo na construção da irmandade universal é, de modo especial, um chamado a nós franciscanas e franciscanos que temos como exemplo as diversas experiências de diálogo de Francisco e Clara de Assis. Moro em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, e, devido à Pandemia da COVID19 e às medidas de segurança, as formações foram realizadas virtualmente. Destaco as lives realizadas pelo Centro de Espiritualidade Arturo Paoli (CEPA), trazendo a cada domingo de fevereiro e março 2 lideranças de diferentes religiões para dialogar sobre temáticas diversas. E, ainda, na perspectiva de que essa temática deva permear as discussões ao longo do ano, lives e rodas de conversa estão acontecendo na Escola de Ética e Cidadania Ana Isabel Alfonsin ao longo deste ano, organizada pela Escola de Teologia e Espiritualidade Franciscana (ESTEF) em parceria com outros coletivos, que versa sobre o Diálogo trazendo as experiências de diferentes tradições religiosas.

  1. A CFE trouxe à tona diversas violências geradas pela falta de diálogo e informação. Como se dá esse diálogo e acesso à informação na área de missão da Congregação que integra?

As violências sempre existiram e foram mantidas em silêncio, por muito tempo, pelas pessoas que as sofriam. Cada vez mais, graças a Deus, as vozes caladas e violentadas estão corajosamente levantando-se em nossa sociedade e sendo visibilizadas nas Redes Sociais. A CFE, ousadamente, trouxe à tona muitas dessas vozes que, silenciadas inclusive pelas instituições religiosas, nos davam a falsa sensação de “paz”. O diálogo, que constrói a verdadeira Paz, só acontece quando todas as vozes se manifestam. Nos lugares onde estamos, somos convidadas a construir esses espaços de escuta e acolhida. Estou inserida na missão do cuidado, no Lar Santa Elisabeth, uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) da Congregação. Nesta missão trabalhamos e convivemos com pessoas de diversas idades, gêneros, religiões… onde o diálogo é essencial para o cuidado humanizado. Dessa forma, realizamos encontros para refletir sobre a temática da CFE, com as colaboradoras e colaboradores da missão, para juntas e juntos identificarmos caminhos para superar as polarizações e violências.

  1. Dentro de nosso carisma celebramos recentemente os 800 anos do Diálogo Inter-religioso de Francisco e o Sultão Al-Malik Al-Kamil e agora temos a CFE 2021. Como se dá o diálogo Ecumênico e Inter-religioso na Vida Religiosa Consagrada Franciscana?

O diálogo de Francisco com o Sultão nos ensina sobre o respeito e encantamento pela experiência de fé de Al-Malik Al-Kamil. Aprendemos neste encontro, como diz na Fratelli Tutti, a cultivar o coração sem fronteiras, capaz de superar as distâncias de proveniência, nacionalidade, cor ou religião e revelar a todas as pessoas o Amor de Deus. A experiência pessoal de Fé não nos fecha em nós mesmos, mas abre ao novo, desperta para a Beleza Divina revelada nas partilhas de vida e nos ritos das diferentes tradições religiosas.

  1. Como franciscanas e franciscanos, religiosas, religiosos, jufristas, OFS e simpatizantes, como podemos dialogar para contribuir com as realidades de missão Ecumênica e Inter-religiosa?

A CFE nos convida a sermos ponte para superar as divisões e transpor os muros que impedem o diálogo. Nossa Irmã Clara nos exorta “Jesus é a Ponte entre aquele que tudo pode e as criaturas que de tudo precisam. Seja você também uma ponte que liga os que têm de sobra, com aqueles que sentem falta de tanta coisa.” A experiência com Deus de Jesus Cristo, nos compromete com a construção do Reino de amor e justiça, neste mundo, sensíveis aos apelos de nossas irmãs e irmãos e da Casa Comum. Acredito que uma das formas de contribuirmos com a Missão Ecumênica é unindo forças pelas causas comuns em favor dos mais vulneráveis, na luta contra as violências institucionais e exploração legitimadas indevidamente em nome de Jesus, na defesa pela democracia e por Vacina contra a COVID19, por exemplo. Outra experiência concreta que vem acontecendo a convite do Papa Francisco é a Economia de Francisco e Clara, que chama as juventudes de todo mundo a realmar a economia, com suas diferentes experiências de fé e culturais.

  1. Qual a importância de dialogarmos sobre a Fraternidade como regra de vida em nossas realidades? É possível aceitar as diferenças e crescer sendo todas e todos diferentes?

 Viver o Evangelho, como Regra de Vida, em fraternidade universal é nossa missão como franciscanas em nossas realidades. Seja na família, no trabalho, na escola, na universidade onde estivermos somos chamadas a testemunhar que é possível conviver, crescer, dialogar com as nossas diferenças, e nosso carisma nos faz ir além e celebrá-las como revelação criativa do Deus encarnado na diversidade dos corpos, dos pensamentos, das subjetividades. Na fraternidade, as potencialidades de cada uma e cada um, com diferentes dons e qualidades, são colocadas a serviço pelo bem comum e precisam ser reconhecidas e celebradas como Francisco celebrou o Frade Perfeito.

  1. Este ano celebramos 06 anos da Encíclica Laudato Si’ e recentemente recebemos a Encíclica Fratelli Tutti. Como podemos nos colocar a caminho diante de nossa realidade de Fraternidade, Congregação, Província, Família?

As duas encíclicas são inspiradas no testemunho de nosso pai Seráfico, na sua forma de se relacionar com a Criação, com seus irmãos e com o Altíssimo, Sumo Bem. Hoje nós, como Família Franciscana, vivemos no mundo fortalecidos por essa Espiritualidade que nos anima a caminhar com esperança, redescobrir a força e a beleza do diálogo como caminho de relações mais amorosas, assumindo o compromisso com o cuidado da Casa Comum, com o diálogo e a amizade social.

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