Introdução ao itinerário de desenvolvimento da Cultura Digital

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A história é marcada por grandes revoluções e transformações na forma de ser, de agir e de se relacionar com o novo. Desde a antiguidade até a contemporaneidade, a comunicação sempre esteve presente nas diferentes formas de se compreender o mundo.

Desde os profetas até a Palavra que se fez carne; da Igreja primitiva a Frei Thomas de Aquino; de Frei Guilherme de Occkham até a Fenomenologia; da revolução tecnológica até os nossos tempos; comunicar é envolver-se com toda a construção da linguagem humana, com sua arte e cultura. Nossas sensações, sentimentos, percepções e expressões estão nas pinturas rupestres até a mais modernatecnologia[1]. Comunicar é se relacionar com o meio, sendo parte integrante dele.

Coma invenção da imprensa, ainda no século XV, a forma de se comunicar ganhou novas estruturas e ferramentas, capazes de disseminar uma ideia de forma peculiar e mais expansiva. Por mais que o teatro, as pinturas e a dança já colaborassem com essa expansão, a reprodução do texto em massa deu acesso à informação para centenas de pessoas. Além do lúdico, abriu-se a possibilidade de ter a comunicação escrita como direito. Por conseguinte, a comunicação ganhou novos símbolos a partir da fotografia, do sistema eletrônico e da evolução da informática. Uma nova perspectiva de comunicação simbólica e relacional vem se transformando numa velocidade absurda desde o início do século XX.

Na contemporaneidade, a tecnologia ganha aparatos capazes de interligar diferentes culturas e sociedades. O ciberespaço[2], que independe da presença física do homem, é uma comunicação por redes. A partir dele o mundo fica conectado com tudo o que acontece em diferentes lugares. Uma nova cultura surge com toda essa nova tecnologia. Um novo ethos começa a ser desenhado para que a sociedade dê conta de estar “conectada” com esses avanços.

Atualmente as memórias e histórias que pertenciam a diferentes comunidades podem ser encontradas num único espaço. Estamos envolvidos numa rede extraordinária de saberes e culturas, uma interconexão que nos conduz a um repensar coletivo de conhecimento e educação.

Com tantas mudanças e transformações, algumas instituições muito antigas, ou grupos tradicionais se deparam com uma realidade que os confronta constantemente. É preciso novas respostas para o contexto atual. E nessa perspectiva muitas instituições dão conta de aproveitar as novas plataformas digitais para desenvolverem de forma mais dinâmica seu trabalho enquanto outras se perdem na forma de adotar e de utilizar os novos meios de comunicação.

A Igreja, por exemplo, acostumada com as ondas de rádio e com a comunicação impressa, precisou se reinventar para ganhar espaço de evangelização nos novos recursos de mídias. A Vida Religiosa Consagrada acostumada com uma formação “dada e pronta” (no sentido de livros formativos e manuais) onde a tecnologia, até então, não fazia parte, se vê diante de um novo desafio vocacional: os jovens da geração tecnológica.

A Pastoral sempre esteve diante de diferentes desafios sociais. Desde a guinada na forma de se relacionar com a sociedade, provenientes de revoluções no decorrer dos séculos, até a descoberta da singularidade, os trabalhos pastorais tiveram diferentes respostas para os diversos desafios. Todavia, um dos desafios atuais está no modo de acolher, utilizar e respeitar o uso das tecnologias pelas diferentes gerações e utilizá-las para o melhor desenvolvimento de seu trabalho apostólico e missionário. Dos “Baby boomers” até a geração “Alpha”, são diversos os hábitos e o modo de utilizar a tecnologia.

Estamos, mais uma vez, diante de um momento desafiador na sociedade em que temos mais perguntas do que respostas. A cultura digital têm influenciando o modo em que nos comportamos em sociedade, tem alterado nossos hábitos de relacionamento e recriado os espaços de interação. O espaço virtual deu-nos a garantia de expansão de mundo, mas não colocou limites. As informações são rapidamente difundidas e com elas vemos uma quantidade absurda de negacionismo, conspiracionismos e populismo. Tais processos emergem dum sistema que lucra, que gera crises e polarizações a partir dos seus usuários que vivem a espontaneidade, o livre arbítrio e a manipulação técnica.

Portanto, a garantia de uma conexão com a internet e uma liberdade total pode não estar nos garantindo um acesso a informações verdadeiras. Talvez estamos sendo influenciados pelas páginas que lemos com rapidez em nossas telas. Talvez sejamos um produto para as plataformas digitais, talvez estejamos sob a vigilância de um novo panóptico das redes. Talvez saibamos o que é a cultura digital e suas implicações. Talvez!

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[1] Na perspectiva de Merleau-Ponty (Fenomenologia da Percepção) e Vincent Van Gogh(Os Girassóis) toda expressão do corpo é comunicação e revela parte do indivíduo ao meio em que vive. Quanto maior a intensidade e complexidade, maior a inteireza do ser.

[2]Apesar desse termo ter sido difundido por Pierry-Lévy, ele foi idealizado por William Gibson em sua obra chamada Neuromacer. Na obra de Gibson o ciberespaço foi o termo criado para se referir ao espaço virtual que conectava humano emáquina.

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Ensaio sobre o Desenvolvimento da Cultura Digital elaborado a partir da leitura das obras:

DELLA CAVA, R; MONTERO,P. E o verbo se faz imagem: igreja católica e os meios de comunicação noBrasil, 1962-1989. Rio de Janeiro: Vozes, 1991.

O´NEIL, Cathy. Algoritimos de destruição em massa: como o bigdata aumenta a desigualdade e ameaça a democracia. Tradução por Rafael Abraham.Santo André: Editora Rua do Sabão, 2020.

WIENER, Ana. Vale da estranheza: fascínio e desilusão na meca datecnologia. Tradução por Débora Landsberg. São Paulo: Companhia das Letras,2022.

Autor: Frei Douglas Leandro de Oliveira, OFMCap

Fonte: Capuchinhos.org.br

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