A conversão como mudança de lugar em São Francisco de Assis

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Frei Luiz Eduardo Araújo Pereira, FMM

  1. INTRODUÇÃO

A Conversão no primeiro Testamento bíblico tinha seu significado “voltar atrás”, ou seja, inverter a rota, refletir sobre os próprios passos. Portanto, a um certo momento da vida, a pessoa percebe que está fora do rumo, fora do objetivo, fora do caminho. Ao longo da história do antigo Israel o povo volta a Deus, por meio de uma inversão de marcha. E neste sentido a conversão seria algo na linha moral, de mudar costumes, abandonar vícios e voltar atrás. Encontramos este modelo de conversão nos profetas e até mesmo em João Batista (Mc 1,4).

No Segundo Testamento, Jesus propõe uma conversão diferente, não mais de voltar à lei, mas ir ao encontro do Reino de Deus que está próximo, ou seja, dar um passo adiante para entrar no Reino. Ou seja, chegou a salvação, agora é preciso converter-se a ela. Desta forma ocorre a inversão, primeiro somos salvos por Deus, depois a conversão. “Hoje a salvação entrou nesta casa” (Lc 19,9), Jesus dá a Zaqueu a salvação, e depois Zaqueu o segue, ou seja, confirma e abraça o caminho do Redentor. A salvação trás dentro de si a exigência da conversão, convertei-vos por que o Reino de Deus está aqui. É o processo de converter e crer, converter crendo, confirmando esta salvação em nós. Jesus propõe a conversão a dois modos, o primeiro a todos (Mc 1,15), depois de uma forma mais restrita aos que já o seguem (Mc 9-10). Após congregar o grupo dos doze, Jesus passa a formá-los, orientando-os para abandonarem a maneira do mundo pensar, para a maneira de Deus pensar.

 Francisco de Assis, vivendo no mundo, foi convidado a abraçar a salvação por meio de sua conversão. Depois de ouvir a voz de Deus, e ser questionado pelo Altíssimo, ele passa a procurar a resposta de Deus para sua vida. A conversão na tempo de Francisco era pregada por muitos, inclusive hereges, mas, o distintivo para perceber a autenticidade da conversão e pregação era a mudança de lugar, por meio da obediência autêntica de Deus no Evangelho e na igreja. Portanto, onde está a conversão como mudança de lugar na vida de Frei Francisco? 

  1. FRANCISCO E O MUNDO

A intensa busca pelo Eterno, motivou o filho de Pedro di Bernadone a mudar de lugar e a abandonar os modos mundanos de viver, trocando-os pela opção divina da pobreza. De uma vida luxuosa, vaidosa e frívola a uma vida simples e desapegada. Em São Francisco encontramos um sentido diferente de conversão, pois, o conceito nos move a entendê-lo como mudança de meta, porém, em Francisco encontra-se uma radicalidade de conversão, pois, ele além de mudar de meta, muda de lugar. Da vida de moleza, dissoluta e lascívia a uma vida de pedreiro de igrejas abandonadas e enfermeiro em um leprosário. Francisco primeiro muda a própria estrutura de vida, converte o coração para Deus e converte a vida. A partir da mudança de lugar, Francisco atrai os olhares de Assis, pois, denúncia com a sua conversão, denuncia o péssimo costume da vaidade e luxo dos cristãos assisiensis. 

O movimento Franciscano surge como uma resposta ao mundo, de que era necessária uma vivência autêntica de cristianismo, retornar ao Evangelho, a fonte do cristão. Faltava no mundo de Francisco: “a prontidão alegre e espontânea as ordens do amor, para seguir Cristo e por ele, experimentar o mistério da fraternidade com os homens e com a criação, na paternidade de Deus” (IRIARTE, 1976, p. 23).

Ser consagrado franciscano, é fazer brotar no meio do mundo uma autêntica ligação com o criador, do meio do povo nasce o desejo de consagrar o próprio mundo, afinal de contas “a vida religiosa surgiu como um movimento laico, antes de todo e qualquer movimento na igreja. […], A VRC laical acentua a presença cristã no mundo, por causa do Evangelho.” (MATTOS, 1994, p. 30), antes, o processo da vida religiosa consagrada era o de fuga mundi, porém ao decorrer da história esta ideia foi mudando para uma ideia de fermentação do evangelho a presença dos consagrados no mundo, por meio dos diversos serviços e carismas para a sociedade. Ou seja, o leigo consagrado é tirado do mundo em favor do mesmo mundo. “Deste modo, os Institutos são convidados a propor corajosamente o espírito de iniciativa, a criatividade e a santidade dos fundadores e fundadoras, como resposta aos sinais dos tempos visíveis no mundo de hoje” (VC 35). Deus responde ao mundo por meio de leigos que desejam consagrar a vida pela salvação do próprio mundo.

  1. FRANCISCO E O SEU PECADO

Francisco de Assis em seu testamento revela que o Senhor iniciou nele um processo, caracterizado como “uma vida de penitência” (Test 1,1). É o Senhor que concede a Francisco o dom da penitência. A penitência ainda não é a conversão, porém, em diversos relatos hagiográficos da igreja, a conversão e penitência são caracterizados como sinônimos. Porém, a penitência está ligada a momentos, certas épocas na vida da igreja, (dias canônicos ou tempos litúrgicos), ou seja, não tem por objetivo somente provocar mudança, mas reflexão, mesmo que seus efeitos sejam de caráter convertio. Francisco percebe que a penitência gera frutos em si, “percebi que estava em pecado, pois parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos” (Test 1,1). Portanto, a penitência provoca em Francisco reflexão sobre o estado de pecado, mas ainda não provoca per si a conversão.

Francisco percebe que está em pecado, e agora busca resolver isto “Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência” (Test 1,1), Francisco percebe que seus caminhos não são os mesmos traçados pelo seu Senhor, é preciso mudar a rota. Mas, qual era o pecado de Francisco?

A condição pecadora de Francisco é destacada em I Celano, ele enfatiza dizendo: “Este é, pois, um homem que vive no pecado com paixão juvenil. Arrastado pelos impulsos de sua idade, pelas tendências da juventude e incapaz de controlar-se, poderia sucumbir ao veneno da antiga serpente. ” (ICel 2,3). O pecado aqui, se trata das perversidades juvenis dos ciclos de amizades dos jovens do feudo, das festas, serenatas, bebedeiras etc. 

Porém, na Legenda Maior não encontramos concordância com esta idéia, pois se diz: “com o auxílio divino, jamais se deixou levar pelo ardor das paixões que dominavam os jovens de sua companhia. Embora fosse inclinado à vida dissipada, nunca cedeu à tentação.” (LM 1,1). Ou seja, ambos hagiógrafos se contradizem em relação à vida de Francisco com os jovens asisienses. 

Boaventura vai para outra margem, considerando Francisco desde sua juventude um homem piedoso e ouvinte atento ao Evangelho, homem que não se deixou levar pela juventude mundana. O jovem era cheio de “Mansidão, gentileza, paciência, afabilidade mais que humana, liberalidade que ultrapassa seus recursos eram sinais de sua natureza privilegiada que anunciavam já uma efusão mais abundante ainda da graça divina nele.” (LM 1,1). Celano discorda afirmando: “Vivia na cidade de Assis, na região do vale de Espoleto, um homem chamado Francisco. Desde os primeiros anos foi criado pelos pais no luxo desmedido e na vaidade do mundo. Imitou-lhes por muito tempo o triste procedimento e tornou-se ainda mais frívolo e vaidoso. ” e continua:

Nesses tristes princípios foi educado desde a infância o homem que hoje veneramos como santo, porque de fato é santo. Neles perdeu e consumiu miseravelmente o seu tempo quase até os vinte e cinco anos. Pior ainda: superou os jovens de sua idade nas frivolidades e se apresentava generosamente como um incitador para o mal e um rival em loucuras. Todos o admiravam e ele procurava sobrepujar aos outros no fausto da vanglória, nos jogos, nos passatempos, nas risadas e conversas fúteis, nas canções e nas roupas delicadas e flutuantes. Na verdade, era muito rico, mas não avarento, antes pródigo; não vido de dinheiro, mas gastador; negociante esperto, mas esbanjador insensato. Mas era também um homem que agia com humanidade, muito jeitoso e afável, embora para seu próprio mal. Principalmente por isso muitos o seguiam, gente que fazia o mal e incitava para o crime. Cercado por bandos de maus, adiantava-se altaneiro e magnânimo, caminhando pelas praças de Babilônia até que Deus o olhou do céu. (ICel 1,2)

I Celano, ao contrário de São Boaventura, destaca que o jovem Francisco supera em vícios os jovens de seu tempo. Considerando que isto tenha durado aproximadamente vinte e cinco anos. É destacado também a vaidade por roupas e exageros em jogos e passatempos de sua época. Pretendendo assim destacar um lado de Francisco apegado às coisas mundanas.

A pergunta que poderia ser feita é: qual de fato era o pecado de Francisco? 

  1. I Celano: vícios, vaidade, frivolidade, incitador do mal, loucura, vanglória, jogatinas, beberão, gastador, insensato, exagero nas vestes (1,2);
  2. II Celano: chefe dos banquetes lascivos (3,7) ;
  3. Legenda Maior: alimentado pela vaidade, rodeado de jovens lascivos;
  4. Legenda Menor: alimentado pelas vaidades (1,4), destinado aos negócios lucrativos (1,4), entre os jovens lascivos (1,4), mergulhado nos cuidados terrenos (2,3);
  5. Legenda dos Três companheiros: alegre e liberal, entregue aos jogos e cânticos, vagabundo, liberalíssimo nos gastos, exagero no vestir, vaidoso (1,2);
  6. Anônimo Perusino: esquecido dos mandamentos do Senhor, mal-agradecido, digno de morte, gastador, opulento e mundano (1,3),

Nas seis biografias encontram-se elementos idênticos, como a vaidade, exagero nos gastos, lascívias etc. Vemos um Francisco dado aos desejos carnais mundanos. Tais descrições são consideradas pelos hagiógrafos pecados. Numa tentativa de mostrar a bondade de Deus de ajudar a Francisco mudar de lugar, a buscar o divino e deixar a mundanidade.

Tais pecados são considerados apenas pelos hagiógrafos, pois, Francisco denomina a vida de pecado uma outra forma sua de agir. Ele afirma: “Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como estivesse em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles. ” (Test 1-2). Francisco enxerga algo concreto nele que o impede de olhar para os leprosos, e a forma que ele encontra para se livrar desse pecado é a penitência. Aqui, vale destacar que a penitência é distinta da conversão, mesmo que uma leve a outra. A penitência que Francisco faz aqui, é o caminho para se converter e abandonar este pecado “não olhar para leprosos” (Test 1). Quando falamos em penitência, estamos tratando daquilo que nos ajuda a mover-nos para a conversão. Com a penitência pode-se enxergar com mais facilidade o que é preciso mudar, qual pecado está atrapalhando o caminho para uma vida cristã autêntica. 

Fazendo um processo paralelo de penitência e conversão, Francisco percebe que seu pecado é estar fugindo dos leprosos […], “E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles.” (Test 2). Portanto, aquilo que para os biógrafos era o mais grave na vida de Francisco, não parece mais ser o pecado mais relevante para o jovem de Assis. Dado que, o processo de afastamento dos vícios mundanos já se iniciara a alguns anos antes. Ou seja, Francisco, ao se libertar dos prazeres da carne, consegue perceber que existe um pecado maior que o afasta do seu Senhor, o rejeitá-Lo nos leprosos. 

Como inexperiente ainda na vida dedicada a Deus, Francisco busca um modo de fugir de seu pecado. Na vida de conversão daqueles que querem abraçar a VRC, buscam fugir do pecado, e desta forma, “[…], a profissão de castidade, pobreza e obediência torna-se uma admoestação a que não se subestimem as feridas causadas pelo pecado original, e, embora afirmando o valor dos bens criados, relativiza-os pelo simples facto de apontar Deus como o bem absoluto” (VC 87). As feridas do pecado persistiram em avançar sobre o caminho do consagrado, como remédio de prevenção e de cura temos a própria consagração, sendo esta buscada de forma autêntica e humilde. Desta forma, Francisco toma consciência de que o pecado é a lepra que mancha a alma humana.

  1. DE RICO A POBRE

Após se descobrir em pecado, Francisco inicia um processo de conversão, e o primeiro passo a ser dado é mudar de lugar, abandonar a vida opulenta e vaidosa, por uma vida ligada ao Altíssimo. Antes de encontrar a vontade do Senhor, Francisco vagava em busca do título cavalheiresco, e na volta de uma luta civil, ele em um sonho recebe a convocação do Senhor para servi-lo.

Durante a noite ouve o Senhor lhe dizer em tom familiar: “Francisco, quem pode fazer mais por ti: o senhor ou o servo, o rico ou o pobre?” Francisco responde que é o senhor e o rico, evidentemente. E o Senhor lhe retruca: “Por que então deixas o Senhor para te dedicares ao servo? Por que escolhes um pobre em vez de Deus que é infinitamente rico?” “Senhor, responde Francisco, que quereis que eu faça?” E Deus lhe disse: “Volta para tua terra, pois a visão que tiveste prefigura um acontecimento totalmente espiritual que se realizará não da maneira como o homem propõe, mas assim como Deus dispõe”. De manhã, Francisco tratou de voltar para Assis. Estava sobremodo alegre e o futuro não lhe dava preocupação; era já um modelo de obediência e aguardou a vontade de Deus. (LM int. 3).

Após ouvir o chamado do Senhor, Francisco sai do centro da cidade e passa a andar pelos bosques fora do feudo. Francisco passa a desejar servir ao Senhor Altíssimo e não aos servos frágeis. Boaventura destaca que foi a partir deste momento que ele se afasta dos amigos de festa, e passa a preferir a solidão, e chorar as faltas cometidas pelos bosques e jardins fora dos muros, como nos narra a Legenda Maior.  I Celano relata o processo de Francisco em abandonar a riqueza por meio de uma doença, que o faz refletir sobre sua vida: “desde este dia, começou a ter-se em menos conta e a desprezar as coisas que antes tinha admirado e amado” (ICel 2,4). Mesmo passando por tal doença e inspiração em abandonar as coisas terrenas, Francisco ainda se desvia, e vai para a Apúlia em busca do prestígio e do desejo paterno do título cavalheiresco. Durante a noite sonha, e interpreta os sonhos como confirmação de sua jornada para a guerra, achando que possivelmente seria um príncipe ou algo do tipo: “lhe foi dito que todas aquelas armas seriam suas e de seus soldados. Assim que acordou, levantou-se alegre de manhã e, julgando a visão um presságio de grande prosperidade, assegurou-se de que sua excursão” (ICel 2,5), “mandou confeccionar roupas de tecidos preciosíssimos” (LTC 2,4) e “pegou uma bagagem cheia de vestes preciosas […], ficando mais feliz do que de costume, e ele respondia aos que perguntavam do motivo de tanta alegria, ‘sei que me tornarei um grande príncipe’” (AP 1,5). Porém, mais uma vez Francisco é visitado pelo Altíssimo, desta vez já em Apúlia, e a cena do sonho é a mesma do sonho anterior, o Altíssimo pergunta: “Para onde vais? E ele explicou por ordem todo o plano” (LM 1,6). É possível perceber que Francisco não se dá conta que estas visitas nos sonhos não são intuições suas, mas do Altíssimo. O jovem assisense estava tão centrado na opção de grandeza, que não enxerga e nem ouve a voz de Deus, para isso, foi necessária uma visita mais clara e forte para que ele acordasse e percebesse para onde estava indo.

Quando Francisco lhe contou todo o seu propósito, Ele disse: “Quem pode ser melhor para ti? O Senhor ou o servo? ”  Como Francisco Lhe respondesse: “O senhor”, disse-Lhe de novo: “Então por que deixas o Senhor pelo servo e o Príncipe pelo vassalo? ”. E Francisco disse: “ Senhor, que queres que eu faça? ”. Disse o Senhor: “Volta para tua terra, e te será dito o que haverás de fazer. Pois deves entender de outro jeito a visão que tiveste”. Ao despertar, começou a pensar seriamente sobre a visão. (LM 1,3).

O processo de manifestação de Deus em Francisco é lento, pois o jovem está submerso na busca pelo poder temporal, a cavalaria, a riqueza e a grandeza. O desejo de Francisco é ser o maior, de elevar sua condição burguesa para a nobreza. Porém com a visita do Senhor no sonho, ele recebe um desnudamento de sua vaidade, que o sufocava. 

No primeiro sonho, Francisco fica feliz, espalha para todos que será príncipe, compra tecidos finos. Porém, no segundo sonho, quando o Senhor lhe fala claramente sobre o que fazer ele silencia: “recolheu-se todo dentro de si, admirando e considerando sua força tão diligentemente, que naquela noite não mais conseguiu dormir. ” (LTC 6,11). Este entristecimento dura pouco, logo ao amanhecer Francisco parte para Assis.

A vontade de Francisco é ser o maior, e a vontade do Altíssimo é que ele seja um servidor do Senhor e o Príncipe, não humanos, mas divino. O desejo de Francisco é ser maior, se tornar grande, porém a proposta do Senhor é de que “Se quiseres ser o maior, seja aquele que serve” (Mt 20,20). O Evangelho não proíbe aspirar à grandeza e querer primeirar. Diz: “Quem quiser ser o maior”, “quem quiser ser o primeiro…”. Portanto, é lícito querer fazer grandes coisas e até mesmo “primeirear”. Apenas o modo de realizar este objetivo mudou: não mais se elevando acima dos demais para dominá-los, mas abaixando-se para servi-los por amor.

Francisco percebendo que ser ‘menor’ é o caminho mais seguro para ‘ser o maior no reino dos céus’ (Mt 18,19). Porém, o pequeno jovem não sabe ainda por onde começar. Retorna a Assis para encontrar a vontade do Senhor, ou seja, retorna para a própria realidade, para enxergar em si e nos seus aonde está o coração?! No servo ou no Senhor? 

O primeiro passo, é um passo dolorido, é desistir de lutar na Apúlia. Este retorno (μετανοεῖν – vb. metanóia), coloca Francisco no processo de despojamento. A juventude assisense ainda o considera como seu patrício, mas o percebe diferente, mais silencioso e ausente, o perguntam “[…], em que anda pensando que não vieste conosco? Será que pensaste em te casar? Respondeu-lhes com viva voz: ‘Dissestes a verdade, eu estava pensando em receber a esposa mais nobre, mais rica e mais bela que jamais vistes“. (LTC 3,6). 

Talvez ressoa no íntimo de Francisco as palavras do evangelho:  “[…], “Se quiseres ser o maior, seja aquele que serve” (Mt 20,20), e agora o que fazer para ser o maior no reino? Deste modo ele começa a buscar em seu interior desapegar-se daquilo que o atrapalha em ouvir a voz do Senhor. O primeiro passo é abandonar aquilo que mais lhe era motivo de apego: as riquezas.

Levantou-se, pois, armado do sinal da santa cruz, e, tendo preparado um cavalo, montou e, levando consigo ricas peças para vender, foi depressa para a cidade de Foligno. Tendo vendido como de costume tudo que levara, o feliz mercador abandonou l também o cavalo em que fora montado, depois de receber o preço que valia. De volta, livre da carga, vinha pensando com visão religiosa no que fazer com o dinheiro. Admirável e repentinamente convertido para as coisas de Deus, achou que era pesado demais carregar aquele dinheiro por mais uma hora que fosse. (ICel 4,8).

Encontramos os primeiros relatos do processo de mudança de lugar em Francisco (de burguês à pobre). Ocorre um processo de desapego progressivo. Em II Celano o processo é mais lento do que no primeiro, pois, em II Cel, Francisco passa por um processo de desapego, primeiro Francisco vai a Roma fazer a peregrinação às basílicas indulgênciáveis, e decide trocar as vestes com um pobre á frente da antiga basílica de São Pedro (II Cel 4), aqui temos um primeiro relato concreto, que prefigura um desejo interior nele de mudar de lugar, de se tornar pobre. II Celano ainda destaca que ele repete este gesto muitas vezes, de dar suas vestes aos pobres.

Na Legenda dos Três Companheiros, é destacado a assistência que Francisco dava aos pobres “[…], Se estivesse sem dinheiro, dava-lhe o gorro ou o cinto, a fim de não mandá-lo embora vazio. Se nem isto tivesse, ia a algum lugar oculto, tirava a camisa e a mandava para o pobre, para que a levasse por amor de Deus.” (LTC 3,6-7). Narram também que Francisco já desde cedo alimentava atenção especial para com os pobres, fazendo propósito de não negar mais esmola a nenhum pobre que lhe pedisse por amor de Deus, mas que daria esmolas generosas a eles. 

Aparece na LTC o mesmo relato de II Celano em relação a troca de vestes “[…], mudado pela graça de Deus, desejava estar onde, pudesse tirar as próprias roupas e vestir as roupas emprestadas de algum pobre, para experimentar pedir esmolas pelo amor de Deus.” (LTC 3,10).

Na Legenda Maior de São Boaventura, encontra-se brevemente o relato do tratamento de Francisco para com os pobres, não muito diferente dos relatos anteriores.

“Imbuiu-se desde então do espírito de pobreza, com um profundo sentimento de humildade e uma atitude de profunda compaixão. […], ao se achegar aos pobres, não se contentava em lhes dar o que possuía. Desejava dar-se a si mesmo e quando já não tinha mais dinheiro, entregava suas vestes, descosendo-as ou rasgando-as às vezes para as distribuir.” (LM 1,6).

Encontramos aqui uma ânsia de Francisco em se tornar o que ele não era, pobre. A passagem do sonho do castelo transforma os seus desejos, e estes não são mais os desejos de ter uma sala militar repleta de armas e o título de cavalheiro. O desejo de Francisco é não ter nada, converteu nele que ele mais temia, ser pobre, sem títulos, sem vestes sofisticadas, sem armaduras; busca mudar de lugar. 

Nos escritos do Anônimo Perusino encontramos algumas cenas semelhantes aos demais hagiógrafos: “Senhor que queres que eu faça? Volta para tua terra! […], logo, como lhe parecia, mudou-se em outro homem pela graça divina” (AP 1,6).

a) “O que queres que eu faça?” (LM 1,3);

 Na surpresa de ser visitado por Deus, e ainda iludido com os apegos terrenos, Francisco parece confuso com os questionamentos do Altíssimo uma pérola da teologia franciscana, semelhante a de Paulo Apóstolo, quando se dá conta que está diante do eterno: “[…], trêmulo e atônito, disse ele: Senhor, que queres que eu faça? Respondeu-lhe o Senhor: Levanta-te, e vai para a cidade. Aí te será dito o que deves fazer.” (At 9,6).

b) “Vai para tua terra” (AP 1,6);

O Altíssimo convida a voltar à própria realidade, pois é lá que será revelado o que se deve fazer. Francisco não compreende ainda o que será dele: príncipe ou servo? Retorna contemplativo, aguardando o Senhor falar de novo com ele sobre o que ele devia fazer. Porém, aos poucos Francisco vai sendo guiado por inspirações e aos poucos começa a mudar de lugar, deixando as pompas da casa e família e se tornando desapegado.

c) “Vou me casar com uma noiva nobre e bonita” (I Cel 3,5);

A resposta de Francisco aos jovens que o questionam por que está tão lunático e afastado do bando, é de que ele irá se casar (ICel 3,7). Dizer que ela será nobre e bonita pode indicar dois aspectos distintos nele, o primeiro de ainda ter o desejo de grandeza e vaidade, ou de ter percebido que há algo mais valioso no despojamento, na dama pobreza (EP 22).

Portanto, o sonho da sala de armas desencadeia uma mudança de lugar em Francisco, de um coração sedento de riquezas e vaidades para um coração sedento da vontade de Deus. Abandona as vestes de burguês pelas de um mendigo, não nega nada aos que o pedem por amor de Deus, deixa o convívio palaciano pelos ambientes pobres. Francisco passa a viver mais fora dos muros de Assis, lugar dos marginais, pobres e mendigos.

“Outra provocação vem, hoje, de um materialismo ávido de riqueza, sem qualquer atenção pelas exigências e sofrimentos dos mais débeis, nem consideração pelo próprio equilíbrio dos recursos naturais. A resposta da vida consagrada é dada pela profissão da pobreza evangélica, vivida sob diversas formas e acompanhada muitas vezes por um empenhamento ativo na promoção da solidariedade e da caridade.” (VC 89).

Francisco busca uma consagração comprometida com o evangelho presente no irmão. Vale destacar que a conversão ainda não se deu início completamente, ainda faltam passos para que Francisco mude definitivamente de lugar. Mesmo estando com o coração mudado, Francisco ainda está apegado ao ambiente burguês. Para que esta mudança aconteça ele precisa de um impulso decisivo para iniciar uma conversão definitiva e mudar de lugar. Que passo seria esse?

  1. DA CIDADE PARA O LAZARETO

Após as mudanças no agir, Francisco percebe que falta algo para definitivamente entrar no processo de conversão, e ter um encontro com Cristo. Para ter um encontro com Cristo é necessário o contato com Ele. Os contatos de Francisco antes, era com os jovens, com os nobres e burgueses, com cavaleiros, contato com comércio, agora ele busca um novo contato, e desta vez com o Altíssimo. 

O “Encontro” com Cristo e o “Contato” com Cristo se faz de forma progressiva na vida de Francisco. Primeiro ele ouve o Senhor e retorna para Assis em busca da Sua vontade, depois ele passa a agir em busca do Senhor, e assim o encontra nos leprosos (I Cel 2,5 / II Cel 2,6 / LM 1,3 / Lm 3,3 /LTC 2,5-6 / AP 1,6); No meio deste processo, e aguardando os sinais do Altíssimo em Assis, Francisco tem sua resposta: 

“Certo dia, estando a orar com mais fervor, foi-lhe respondido: – Francisco, se quiseres conhecer a minha vontade, deveis desprezar e odiar tudo o que carnalmente amaste e desejaste possuir. Depois que começares a fazer assim, as coisas que antes te pareciam suaves e doces serão para ti insuportáveis e amargas, mas das que te causavam horror, poderás haurir uma grande doçura e uma suavidade imensa” (LTC 11,1).

Este elo entre o amargo e doce aparece no testamento, de uma forma mais insistente e encarnada, pois Francisco reconhece que o pecado dele era o de ver os leprosos de uma forma amarga. “[…], parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles, […], justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo” (Test 1-3). Portanto, era necessário Francisco ir ao encontro dos leprosos, para que assim, cumprisse a vontade do Senhor, em inverter os desejos, de amargo a doce.

Contente com isso e confortado no Senhor, certa vez indo a cavalo perto de Assis, veio-lhe ao encontro um leproso. E como se acostumara a ter muito horror aos leprosos, fez violência a si mesmo , desceu do cavalo e lhe deu uma moeda, beijando-lhe a mão. Após ter recebido dele o beijo da paz, montou a cavalo e prosseguiu seu caminho. (LTC 11,3).

A mudança de lugar aqui, é caracterizada pela descida do cavalo, ou seja, descer das vaidades, e vencer a si mesmo (Lc 8,23). É deste encontro que nasce o Francisco que veneramos, da mudança de meta, de vencer a si mesmo e ir ao encontro de Cristo no outro.

Desde então começou a desprezar cada vez mais a si mesmo, até conseguir, pela graça de Deus, a mais perfeita vitória sobre si mesmo. Poucos dias depois, levando muito dinheiro, transferiu-se para o leprosário, e, juntando todos, deu a cada um uma esmola, beijando-lhes a mão. Quando foi embora, verdadeiramente o que lhe era amargo, isto é, ver e tocar os leprosos, convertera-se em doçura. Tanto que, como contou, para ele fora amarga a visão dos leprosos, de modo que não só não os podia ver, mas se aproximar de suas casas” (LTC 4,11).

Agora, o jovem assisense passa a ver e tocar leprosos. Não um ver e tocar descomprometido, mas que atinge o próprio orgulho, a ponto de dar a eles a própria vida, de todo o coração, de toda alma e todo o dinheiro (Dt 6,4-7). Uma nova mudança de lugar acontece quando Francisco deixa de ignorar os leprosos, pois antes “[…], se por alguma vez acontecesse de passar perto de suas casas ou de vê-los, virava o rosto e tapava o nariz com as mãos, muito embora, movido por piedade, lhes mandasse esmolas por intermédio de outra pessoa” (LTC 4,10). Agora Francisco se compromete com eles, os abraça e beija-os.

Antes jamais suportara a vista dos leprosos, mesmo à distância, e sempre evitara encontrar-se com eles, mas agora, desejando alcançar o total desprezo de si mesmo, servia-os com devoção, humildade e benevolência, pois diz o profeta Isaías que Cristo crucificado foi considerado um homem leproso e desprezado. Visitava-lhes constantemente as casas e distribuía entre eles esmolas generosas, beijando-lhes as mãos e os lábios com profunda compaixão. (LM 1,6).

São Boaventura na Legenda Maior, destaca que apenas o coração de Francisco havia mudado de lugar, falta agora a mudança radical na vida, mudar de lugar de fato. Tomás de Celano coloca o serviço aos leprosos como o primeiro ato após a conversão de Francisco e, ao mesmo tempo, recorda como o próprio Francisco, no Testamento, reconheceu o encontro com o leproso como uma verdadeira porta de entrada para a mudança radical da sua vida (ICel 7, 17). Celano, narra de forma diferente, destacando que foi imediata a mudança para o leprosário. De fato, imediatamente depois de ser solto por sua mãe da prisão e renunciar aos bens de seu pai na praça de Assis, Francisco “correu” para as cabanas dos leprosos.

[…], o amante de toda humildade transferiu-se para um leprosário. Vivia com os leprosos, servindo a todos por amor de Deus, com toda diligência. Lavava-lhes a podridão dos corpos e limpava até o pus de suas chagas, como escreveu em seu Testamento: “Como estivesse ainda em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos, mas o Senhor me conduziu para o meio deles e eu tive misericórdia com eles”. Esta visão lhe era de tal modo insuportável que, segundo suas próprias palavras, no tempo de sua vida mundana, tapava o nariz só ao ver suas cabanas a duas milhas de distância. Mas, como por graça e força do Altíssimo já tinha começado a pensar nas coisas santas e úteis, quando ainda vivia como secular, encontrou-se um dia com um leproso e, superando a si mesmo, aproximou-se e o beijou. A partir de então, foi ficando cada dia mais humilde até conseguir vencer a si mesmo, por misericórdia do Redentor.

Aquela busca incessante pela vontade do Senhor, agora se torna concreta pelo encontro com o irmão leproso. Um encontro compromissado de viver com eles, para eles e como eles. Ou seja, não foi apenas um cumprimentar ou conhecer, mas assumir, a tal ponto que o move de lugar. Francisco vai contra os instintos de dar uma olhada na tragédia do outro, mas se compromete, se mistura com o horrível, se contamina pelo que era amargo. Aqui se inicia o processo de adequação de Francisco ao Evangelho, por meio do encontro com Cristo em sua presença real imperfeita, ‘[…], como bons samaritanos, sobre as inúmeras feridas dos irmãos e irmãs que encontram pela sua estrada” (VC 108).

Encontrar-se com o outro requer aproximação de sua realidade, bela ou horrível. Os leprosos fazem o coração de Francisco vibrar, e assim começa a criar intimidade a ponto de não querer mais voltar para casa. Esta mudança de lugar vai envolvendo Francisco em uma dinâmica do cuidado com o Cristo-irmão. “Este fervor de caridade dava vida nova a sua piedade, e seu relacionamento com Jesus Cristo, a sua devoção a Maria, e sua ternura para com os homens e sua atitude de irmão para com todas as coisas criadas” (IRIARTE, 1976, p. 51)

Antes, levando uma vida de empreendedor, Francisco reconhece que falta algo que o complete, pois, se sente infeliz e insatisfeito. Procura a satisfação nos desejos de grandeza, procura na cavalaria, na opulência, nas lascívias juvenis, no lucro. Em todos estes caminhos Francisco tem tudo para se realizar e ter sucesso aos olhos do mundo. Francisco percebe que neste caminho de sucessos humanos não é suficiente para o preencher.

a) De maior para menor:

E para encontrar a realização ele precisou mudar de lugar, deixar os doces prazeres e saltar para o outro lado do muro. Ele salta e mergulha na proposta do Evangelho: “Quando que te vimos enfermo ou na prisão? E te fomos visitar? ” […], todas as vezes que fizeste isto a um destes meus irmãos, foi a mim que fizeste” (Mt 25,39-40). Mergulhado nas moções evangélicas, ele deixa pai, mãe e irmãos, renuncia a si mesmo, não leva nada e buscando ser perfeito, toma a cruz e segue. Mudar de lado de maior para maior “[..], não se trata de um gesto ascético de submissão ou de despersonalização, mas uma disposição ativa do seguidor de Cristo para libertar-se de si mesmo e para ascender ao plano da salvação” (IRIARTE, 1976, p. 151). Portanto, o servo Francisco se abre de forma ativa a libertação do ego por meio da minoridade, expresso por meio do abraço e beijo no leproso.

 É um salto, não apenas de visitar, vestir ou dar um copo de água a um Cristo-irmão, mas encarnar-se na realidade deles e ser um Cristo-irmão. Ele vai para as ruínas, para a exclusão da sociedade se tornando o menor, em busca de ser o maior no Reino dos céus (Mt 23,11). A opção de Francisco é ser e viver como e com os excluídos. Através da convivência com aqueles que foram apodrecidos pela sociedade, Francisco abandona a antiga vida pela vida Evangélica. 

O Beijo que Francisco dá e recebe do leproso, pode ser tratado muito além do ato em si, Beijar é passar o sopro de vida, o hálito que alenta, o toque que refaz. Mas quem beijou quem? Deixar-se beijar é mais do que beijar. Francisco recebe o toque de quem tem um último sopro de vida e esperança, um último fio de confiança. Este leproso possivelmente perdeu a confiança na própria humanidade, pois, os homens o abandonaram. Francisco nos diz: “E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles” (Testamento, 2). Não disse “eu tive dó deles”, “que judiação!”, “que pena!”, mas disse “eu tive misericórdia com eles”. Ter misericórdia com! Ir lá junto do sofrimento, misturar-se com a paixão dos que padecem a falta de cuidado. Quem vai lá, pouco a pouco, traz de volta ao Paraíso. Reconduz o humano ao seu melhor lugar. É preciso ir com o coração nas mãos e nas palavras. É muito diferente ser tocado por alguém que tem o coração nas mãos. Foi assim que o leproso beijou Francisco (MAZZUCO, 2010).

Outro aspecto dessa mudança de lugar é o impacto que gera em Francisco, o fato de ele mesmo rejeitar leprosos, expressando em seu testamento como “o pecado”. O leproso abala Francisco, deixa com nojo, e depois com sede, converte o coração para eles. Cristo convida Francisco a reconstruir o que está abalado e desprezado, o templo do Espírito Santo: o outro. A cruz mesma lhe inspira “Vai e restaura a minha casa, como vês, está toda destruída” (II Cel 6,10). O οἶκος (gr. Casa, família, habitação), está mais ligado à própria pessoa humana, um povo que precisa ser restaurado: a igreja militante, a pessoa humana, o Cristo-irmão. I Celano salienta uma reflexão que nos leva a compreender que a igrejinha de São Damião ia além do edifício de pedras: “[…], não a reconstruiu de novo, consertou o que era velho, reparou o que era antigo. Não desfez os alicerces mas edificou sobre eles, reservando essa prerrogativa, ao Cristo: ninguém pode pôr outro fundamento senão o que foi posto: Cristo Jesus”. (ICel 1,8). Já existe um fundamento em si mesmo do templo, é Cristo, o que Francisco faz é devolver a essência, a dignidade da habitação de Deus. Celano destaca a Dama Clara como uma pedra preciosa da habitação: “Nela estabeleceu-se Clara, natural de Assis, como pedra preciosa e inabalável, alicerce para as outras pedras que se haveriam de sobrepor.” (ICel 1,8).

Deste modo, pode-se entender como restaurar a casa, como colocar a humanidade novamente em pé, devolver a ela a sua condição. Mas, faltava em Francisco um elemento para progredir na conversão: a fraternidade.

b) Da solidão para a Fraternidade:

Por um tempo, Francisco foi um enfermeiro solitário, vestido como um eremita, procurando manter os leprosos assistidos, porém, sozinho.  Agora é hora de mudar de lugar novamente: Deixar a vida de enfermeiro solitário e formar fraternidade. Três anos após a mudança para a cabana dos leprosos, e de reconstruir a igreja de São Damião ele encontra outra igrejinha abandonada e a reconstrói, nela escuta o Evangelho de Mt 10,9-10, e responde de forma convicta “E isso que eu quero, isso que procuro, é isso que eu desejo fazer de todo o coração” (ICel 9,22), e assim troca mais uma vez de veste, tira os calçados e se cinge com uma corda. Francisco sai a pregar a paz, pois em Assis o costume era o de guerras civis. “o primeiro que seguiu o santo foi um homem de Assis, de vida piedosa e simples. Depois dele, também Frei Bernardo abraçou a missão de paz, correndo alegremente a ganhar o reino dos céus em seguimento do santo de Deus” (ICel 10,22), eram homens que hospedavam Francisco em suas casas após as pregações. Logo venderam seus bens e deu o dinheiro aos pobres e vestiram as mesmas vestes. ”Francisco, dava a seus novos filhos a nova formação, ensinando-os a trilhar com passo seguro o caminho da santa pobreza e da bem-aventurada simplicidade” (ICel 11,27). Francisco tem sonhos com a multiplicação dos filhos, e percebe que haverá frutos doces e amargos. Logo após a visão da multiplicação dos irmãos, Francisco os envia em missão de dois em dois. Logo, o grupo de irmãos passa a ser doze, vivendo de forma improvisada e pobre. Francisco decide escrever uma regra interna e leva ao papa, em Roma encontra cardeais zelosos que o persuade a ingressar na vida monástica ou eremítica, Francisco não aceita. (ICel 13). Chegando ao papa, os irmãos recebem a aprovação verbal: “Ide com o Senhor, Irmãos, e conforme o Senhor se dignar inspirar-vos, pregai a todos a penitência. Quando o Senhor vos tiver enriquecido em número e graça, vinde referir-me tudo com alegria, e eu vos concederei mais coisas” (ICel 13,33).

Na LM, Francisco agrega irmãos a partir da pregação da paz e penitência, o primeiro deles é Bernardo e, juntos vão a igreja de São Nicolau e escutam a tríplice confirmação do Evangelho: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis e dá aos pobres” (Mt 19,21). A segunda: “Nada leveis pelo caminho” (Lc 9,3). A terceira: “Quem quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Logo já eram seis irmãos, com o propósito de cumprir o Evangelho. Francisco vai ao papa, e este à primeira vista o despreza, porém, após um sonho, o papa o chama de volta e abençoa a proposta de Francisco de viver o Evangelho.

Francisco no seu Testamento declara que “[…], depois que o Senhor me deu Irmãos ninguém me mostrou o que eu deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho. (Test 1,14), é pelo Evangelho que os irmãos se orientam. 

c) Primeiros desafios

Depois de deixarem Roma, e retornarem para Assis, inicia-se os primeiros desafios da comunidade, pois, passaram a morar de improviso em uma cabana perto de Assis, trabalhando pesado e vivendo em penúria. Anos depois se mudam para a Porciúncula, onde se fixam e constroem morada sólida.

d) Uma estrutura

Com sua regra, o Evangelho, os irmãos aos poucos nos capítulos vão modificando trechos, e por fim, era preciso se adequar ao novo direito do Concílio de Latrão (1213-1215), além das pressões eclesiásticas para que os irmãos formulassem uma regra mais canônica. Logo Francisco se depara com o desafio de legislar de forma canônica a vida dos irmãos. É preciso retornar a Roma para entregar ao Papa uma regra oficial de acordo com as necessidades prescritas pela igreja.

Com um número grande de irmãos, e já no final de sua vida, Francisco muda novamente de lugar, deixa a sua vontade pela vontade da igreja, retorna ao início, e em meio aos leprosos de Fonte Colombo escreve a Regra dos irmãos, declarando já de início que a Regra é o Evangelho (RB 1,1). E a partir do Evangelho os irmãos irão abraçar esta vida, irão andar pelo mundo, sem nada de próprio, irão trabalhar, irão pedir esmolas, irão fazer penitência, irão pregar, irão ser corrigidos, irão pregar entre os sarracenos. Ou seja, é o Evangelho que guiará a mudança cotidiana dos irmãos na comunidade e no mundo. É a partir do Evangelho que haverá a mudança de lugar na vida do Frade Menor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Francisco muda de lugar quando deixa a voz de Deus falar e obedece, abandona o caminho da Apúlia e vai para Assis, deixa a vida de cavaleiro para a busca da vontade de Deus. Francisco muda de lugar quando abandona a vida mundana pelo serviço aos necessitados.  Muda de lugar ao deixar as vaidades pela humildade, quando abandona as vestes preciosas, por uma roupa de peregrino. Muda de lugar quando deixa os palácios da burguesia para ir aos bosques, muda quando deixa de ignorar os leprosos e os abraça e beija, vendo-os como Cristo. Muda de lugar quando decididamente deixa pai e mãe e vai morar com os leprosos. 

Também quando recebe mais irmãos, Francisco percebe que precisa converter os desejos pela vontade de Deus. Francisco converte do lazareto para a Porciúncula, quando deixa a solidão eremita pelo convívio fraterno. Francisco muda de lugar quando adere à vontade da igreja de serem institucionalizados. Muda de lugar quando vai a Roma para oficializar o pequeno grupo por meio da vivência de trechos do Evangelho. 

Francisco muda de lugar quando adere à vontade do papa em retornar a Roma para uma nova regra para o grupo maior. Muda de lugar quando aceita a reprovação da regra e retorna a Assis para refazê-la. Muda de lugar quando volta ao leprosário para fazer uma regra definitiva e canônica conforme o pedido pela Sé Apostólica. Muda de lugar quando percebe que a Ordem não é dele e nem dos frades mas do Senhor.

Olhando para Francisco é possível buscar nele o modelo autêntico de conversão, de ir ao encontro de Cristo, abraçá-lo e beijá-lo na sua presença real naqueles que estão visíveis ao redor. Além de encontrar Cristo, ter contato com Crista, mudar o coração de lugar junto a vida.

Como consagrados pelo batismo somos chamados a mudar a cada dia de lugar, e esta mudança precisa de provas, é preciso beijar a realidade da própria fragilidade humana reconhecer-se como fraco e ao mesmo tempo reconstruí-la, dando à pessoa humana condições de se sentir a imagem do criador. Durante toda a sua vida Francisco buscou mudar de lugar, até mesmo em seus últimos momentos convida os irmãos a começar, pois nada foi feito. Vemos em Francisco um compromisso com a realidade, pois nela é que o Senhor Altíssimo passa, quando passa um Cristo-irmão. 

REFERÊNCIAS

FONTES FRANCISCANAS. 1ª ed. O mensageiro de Santo Antônio,

FONTES FRANCISCANAS. 1ª ed. Comp: Frei Celso Márcio Teixeira.

MATTOS, Henrique Cristiano José. Vida Religiosa: um projeto em construção. Editora o Lutador, 1994.

JOÃO PAULO II, Vita Consecrata. Exortação Apostólica, 1996.

CONGREGAÇÃO Para Os Institutos De Vida Consagrada E Sociedade De Vida Apostólica. A Vida Fraterna Em Comunidade. Ed. Vozes, 1994.

Testamento de São Francisco. Trad. Frades Menores Missionários, 2022.

MAZZUCCO, Vitório. Encontro com os leprosos. 2010, https://franciscanos.org.br/vidacrista/encontro-com-o-leproso-2/#gsc.tab=0.

 

Frei Luiz Eduardo Araújo Pereira, FMM

Da congregação dos Frades Menores Missionários. Bacharel em Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Teologia Mater Ecclesiae (IFITEME) em Ponta Grossa – PR. É acadêmico de Teologia na União das Faculdades Católicas de Mato Grosso (UNIFACC-MT) em Várzea Grande – MT.

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