O Espírito Santo na mística franciscana – Parte 02

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Arrebatado pelo Espírito

Léon Robinot, ofmcap

A vida de Francisco de Assis apresenta a particularidade muito evidente de nela se poderem discernir certos momentos-chave: um homem sentindo-se num ápice apanhado, arrebatado por outrem, e imediatamente desviado em direção diferente, como que sorvido por um tornado ou abrasado por um incêndio … Observemos estes arrebatamentos ocorridos sempre por ação do Espírito Santo.

Francisco caminha para o Pai pelo Filho no Espírito: é a «auto-estrada» que conduz à união com Deus, e que ele aprendeu pela prática da liturgia. A sua experiência do seguimento de Jesus, aprendida durante uma vintena de anos, desabrocha na grande doxologia da Primeira Regra, capítulo 23. E essa «auto-estrada» dum filho de Deus percorreu-a sob a conduta do Espírito. Tal é a profunda convicção que pretende transmitir aos irmãos ao dizer-lhes que «devem sobretudo desejar ter o Espírito do Senhor e deixar que esse Espírito atue neles» (2R 10,8).

Os seus primeiros biógrafos, e em particular S. Boaventura, gostam de salientar ação do Espírito do Senhor naquele que consideram como «o anjo do sexto selo» de que fala o Apocalipse, “esse selo impresso em sua própria carne não por qualquer força natural nem por processo mecânico, mas pelo poder admirável do Espírito de Deus vivo» (LM, prólogo). Não se esqueça que o século XIII correspondia à «era do Espírito», segundo as especulações milenaristas inspiradas em Joaquim de Flora, e que seduziram boa parte da cristandade.

Vivendo nós hoje também em tempo de renovação no Espírito, renovação que sobretudo a partir do Concílio Vaticano II vem florescendo em várias formas, o exemplo de Francisco poderá mostrar-nos como deixar atuar em nós o Espírito do Senhor. Para isso vamos analisar, embora não exaustivamente, algumas grandes efusões do Espírito em Francisco, que fizeram desse santo da Idade Média um homem espiritual, fiel discípulo de Cristo.

O Irmão Segundo o Espírito

A designação de afetuosa amizade com que mais vulgarmente apelidamos esse homem de outros tempos, mas tão próximo de nós, é a de «Irmão Francisco”. Um qualificativo bem apropriado, pois o Espírito fez dele um irmão de todos os homens
e até de todas as criaturas.

A aventura começou pelo encontro com leprosos, o beijo ao leproso, o serviço dos leprosos, como ele próprio declara no princípio do Testamento: «Foi assim que o Senhor me concedeu, a mim, irmão Francisco, que começasse a fazer penitência: Quando eu ainda vivia em pecados, era para mim insuportável ver leprosos. Mas o próprio Senhor me conduziu ao meio deles e comecei então a exercer misericórdia com eles. E ao afastar-me deles já se transformara para mim em doçura de alma e de corpo aquilo que antes me parecia tão amargo. Depois dessa experiência pouco esperei para dizer adeus ao mundo (T 1.2).

Arrebatado pelo Espírito do Senhor, Francisco faz a experiência da parábola evangélica do bom samaritano (Lc 10,29-36) e ultrapassa assim a barreira que a comuna de Assis levantara para separar as pessoas que gozavam dos direitos e privilégios de cidadania daquelas outras pessoas banidas da sociedade, expulsas para fora das povoações, vítimas da repulsa e quando muito objeto de piedade. Ao decidir-se a assumir a desventura dos leprosos, transformou-se como em irmão deles. E a partir dessa primeira experiência vai-se tomando cada vez mais irmão dos pequeninos, dos humildes, dos abandonados, dos excluídos por motivo de má conduta, de doença, ou até por injustiça social: entre os irmãos há de mostrar sempre uma ternura particular para com os que sofrem no corpo, no espírito ou no coração. Penetra assim nas bem-aventuranças dos pobres, dos que choram, dos mansos, dos misericordiosos: uma obra que só pode ser realizada pelo Espírito do Senhor.

Isso, nem mais nem menos, pretendia ele dizer ao afirmar que aquilo que antes lhe parecia amargo se transformara em doçura de alma e de corpo. Tal doçura recorda sem dúvida aquela unção de que agora se sentia impregnado, como aconteceu com Jesus ao afirmar em Nazaré: «O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres (Lc 4,1). A partir daí, na esteira de Cristo que se fez nosso irmão, vai Francisco aprender a ser também doce e humilde – ou então cortês, como ele gosta de dizer – para com todos os seres humanos cuja dignidade respeita e defende. Progressivamente e à custa de duras conversões, o Espírito vai nele produzindo os «seus frutos»: «amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio (Gl 5,22).

Transformado assim pelo Espírito, torna-se um irmão tão universal e tão sedutor que chega a conquistar a fraternidade de aves e de peixes, de lobos e cordeiros, do fogo e da água, de todas as criaturas e até mesmo de inimigos como o Sultão do Egito. É como irmão de todos que se atreve a entoar o seu Cântico das Criaturas.

Oxalá a mesma doçura do Espírito do Senhor continue hoje a ajudar os irmãos, as irmãs e os amigos de Francisco de Assis a considerarem-se verdadeiramente irmãos, segundo o Espírito, de todos os excluídos da nossa sociedade no mundo contemporâneo.

Pelo Fogo do Espírito

«O poder incendiário do Espírito de Cristo abrasava-o por completo”, observa Boaventura (Lm 2,2). Verifica-se isso especialmente em dois acontecimentos que lhe alteraram profundamente a vida: o da Porciúncula e o do Alverne.

O mensageiro da paz

Numa manhã de Fevereiro de 1208 Francisco ouviu na Missa o trecho do Evangelho onde se conta como Jesus enviou os discípulos a pregar e lhes indicou a maneira evangélica de viver. Celano salienta que no fim da Missa ele foi pedir ao sacerdote que lhe explicasse melhor essa passagem. E então, «exultando de alegria no Espírito Santo, exclamou: ‘É exatamente isso o que eu pretendo e procuro, e do fundo do coração anseio por realizar’” (1C 22). Boaventura comenta: «Ao escutar atentamente estas palavras, foi tal a violência com que o Espírito de Cristo o sensibilizou, que mudou de vida por completo … (Lm 2,2) Isso constituiu para Francisco como uma Anunciação ou um Pentecostes. E logo se lançou na aventura da missão que teimará em seguir até à morte juntamente com os companheiros que se lhe vão associar.

Nessa passagem evangélica há uma palavra que especialmente o sensibilizou, segundo ele mesmo confidencia no Testamento: «Revelou-me o Senhor que devíamos saudar-nos dizendo: ‘O Senhor te dê a paz’” (T22). Isso virá a fazer dele, com a força do Espírito, o mensageiro da paz de Deus.

É exatamente sob essa figura de mensageiro da Paz que ele hoje é mais conhecido e invocado, como atestam o sucesso da Oração pela Paz, que lhe é atribu1da, e até o encontro ecumênico dos chefes religiosos em Assis, convocado e presidido pelo papa João Paulo II em Outubro de 1986. Com a veia profética dum João Batista, também ele faz aos quatro ventos um apelo a todos à conversão, à reconciliação com Deus e com os irmãos, e mesmo com os inimigos: expulsa de Arezzo os demônios da violência; leva adversários a assinarem tratados de paz; reconcilia em Assis o bispo com o podestade. E à sua fraternidade ainda embrionária confia a mesma missão: «Ide, caríssimos, e anunciai aos homens a paz e pregai-lhe a conversão que leva ao perdão dos pecados» (1C 24).

O recente e histórico acontecimento de Assis mostra como o Espírito do Senhor continua a pressionar a Família franciscana a que se empenhe com coragem no serviçu da paz, pela oração e pela promoção da justiça e dos direitos do homem.

Francisco sonha mesmo com levar a paz para além das fronteiras da cristandade do seu tempo. Por inspiração divina, ou seja, impelido pelo Espírito, atreve-se a fazer uma tentativa verdadeiramente pasmosa para a época: num gesto de cortesia, vai encontrar-se com o Sultão do Egito, considerado, e não sem motivo, o inimigo número um dos cristãos. Uma pregação deste gênero, bem como outros empreendimentos de paz, acaretam-lhe por vez dissabores e hostilidades: mas ele tudo suporta com alegria para seguir mais de perto os passos do seu amado Senhor, na esperança de poder acompanhá-lo até ao martírio. Na impossibilidade de atingir essa meta, acolhe com alegria as humilhações e um certo desprezo que lhe acarreta até mesmo por parte de alguns irmãos, a sua intransigente fidelidade em viver o Evangelho. A parábola da Perfeita Alegria, relatada na “I Fioretti” no capitulo VIII, representa a tradução maravilhosa da experiência de quem sabe sofrer perseguição pela justiça por amor de Cristo. Para Francisco, paz e alegria são frutos do Espírito.

A transfiguração em Cristo

Segundo S. Boaventura, Francisco foi um homem «devorado por um incêndio de amor”– expressão que se tomará clássica na linguagem espiritual franciscana. Ele arde em amor «seráfico», ou seja, à semelhança dos Serafins, que são como tochas a arder diante do trono de Deus. O fogo do Espírito irá se transfigurando em Cristo até à total configuração com o Crucificado no Alverne. Esse amor seráfico parece ter nascido quando da oração de Francisco diante do crucifixo de S. Damião: «Desde essa altura enraizou-se-lhe na alma a compaixão pelo Crucificado; e podemos conjeturar que desde então lhe ficaram profundamente gravados na alma os estigmas da Paixão antes de lhe serem impressos na carne (2C 11).

Quanto ao itinerário da transfiguração de Francisco em Cristo, muitos se têm dedicado a descrevê-lo. Vamos apenas indicar a chave de leitura por ele mesmo fornecida na oração que finaliza a Carta a toda a Ordem. Depois de ter implorado o dom de Deus, prossegue dizendo: « … Interiormente purificados, interiormente alumiados e abrasados pelo fogo do Espírito Santo, possamos seguir os passos de teu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo … » (CO 51). S. Boaventura chega mesmo a concretizar as etapas e as condições do «Itinerário da alma para Deus»; mas para Francisco o caso parece mais simples: foi o fogo do Espírito que o animou a seguir o caminho de Jesus.

Ao Sopro do Espírito

Ao sentir aproximar-se o fim da vida terrena, Frei Francisco afirma com clareza que o movimento evangélico inaugurado em Assis por ele e pelos irmãos e agora confiado à Igreja, só terá futuro pelo sopro do Espírito do Senhor. «Desejava que se recebessem na Ordem pobres e ignorantes, e não apenas ricos e sábios. ‘Deus -dizia ele- não tem em conta essas diferenças; o Espírito Santo, que é o Ministro Geral da Ordem, repousa tanto sobre os pobres e simples como sobre os outros’. Pretendia até que esta frase fosse incluída no texto da Regra – mas a bula da aprovação já tinha sido publicada (a 29 de novembro de 1223); era portanto tarde demais» (lC 123). Sem sombra de dúvida, Francisco toma aqui posição ao lado dos irmãos mais simples, como gostava de lhes chamar, em oposição aos clérigos e a alguns ministros que pretendiam instituir uma Ordem Religiosa capaz de rivalizar com outras de grande renome. E, como de passagem, exprime a convicção profunda e manifesta o desejo ardente de que o Espírito Santo seja de alguma forma o Paráclito, o Advogado, ou, como ele diz, o verdadeiro ministro geral da sua fraternidade (Cf Jo 14, 16-26).

A mesma convição continuará sempre a animar os movimentos franciscanos no decurso da sua longa história. Desde os primórdios, os biógrafos empenham-se em descrever um S. Francisco incessantemente inspirado pelo Espírito, tanto nas iniciativas pessoais como na redação das Regras. Já nessa época os «zelantes» da Regra, numa espécie de namoro com as utopias joaquimistas, acentuarão o aspecto espiritual da vida franciscana, a ponto de serem mesmo chamados «os Espirituais», para se distinguirem dos irmãos simplesmente «observantes» da mesma Regra. Humberto Eco utilizou a seu modo essa controvérsia medieval no célebre romance “O Nome da Rosa”, evocando uma das principais figuras dos «zelantes», Hubertino de Casal, também retratado no filme de Jean-Claude Annaud. A questão centrava-se exatamente sobre a observância da Regra e sobre se o Testamento de Francisco deveria ou não ter valor obrigatório. À medida que ia ganhando terreno uma interpretação cada vez mais jurídica desses textos-base, os Espirituais defendem a intuição – eles chamam-lhe a intenção – de Francisco: a observância espiritual da Regra, interpretada segundo o Testamento e outros escritos e a própria vida do pobrezinho, «por quem o Senhor se dignou falar».

Essa tradição «espiritual», acalmada com o rodar do tempo e desembaraçada de compromissos políticos, vai inspirar numerosas Reformas (diríamos mesmo Rebentos) que aparecem do século XIV ao século XVI. Algumas ainda subsistem e integram a chamada Primeira Ordem Franciscana: observantes, capuchinhos, recoletos … O mesmo dinamismo espiritual suscita de forma idêntica rebentos na Segunda Ordem, a das Clarissas, por exemplo a reforma de Santa Coleta, provoca o pulular de numerosas congregações franciscanas, bem como um reflorescimento da Ordem Terceira e dum laicado evangélico franciscano.

Nos nossos dias, a história espiritual da Família Franciscana procura acompanhar a renovação de toda a Igreja, ao sopro do Espírito.

Do Livro “A Espiritualidade de Francisco de Assis”, Editorial Franciscana – Braga – Portugal


 

A ousadia de se deixar conduzir pelo Espírito do Senhor

Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM

Vivemos numa situação de crise e, entre surpresos e perplexos, constatamos um processo de profundas transformações. Muitas são as indagações que brotam da experiência dos homens e das mulheres do nosso tempo. Inúmeras, as sementes de vida e de esperança entranhadas no nosso cotidiano que, ansiosamente, atendem o momento propício da germinação. Estamos convencidos de que o projeto evangélico de Francisco de Assis goza de uma atualidade surpreendente. Ele tem despertado em todas as culturas e épocas fascínio e acolhida. Seremos capazes, também nós, de encarnar o projeto evangélico de Francisco? Estamos dispostos a oferecer-lhe aquela concreção singular capaz de contagiar alma e corpo, vida e palavra, atitudes pessoais e relacionais?

O Vaticano II convocou-nos à recuperação do nosso carisma inspiracional. Desde então, temos nos empenhado em redescobrir nossa identidade franciscana, mediante o estudo das “Fontes Franciscanas”, e em repropô-la em nossas legislações e documentos recentes. Nossa maior dificuldade, todavia, tem sido encarnar de maneira significativa aqueles valores nos quais cremos e que publicamente professamos. Precisamos estabelecer com a nossa mais genuína tradição uma relação de “fidelidade criativa”. Não basta se debruçar sobre os textos franciscanos. Eles surgiram como fruto da experiência concreta de Francisco e de seus primeiros companheiros. Testemunham o esforço deles em encarnar o evangelho em meio à realidade desafiante dos inícios do século XIII.

Celano escreve que Francisco “fez do seu corpo uma língua” (1Cel 97). Pois compreender é bem mais do que simplesmente explicar. Não que a explicação se oponha à reta compreensão. No entanto, muitas de nossas explicações, ao invés de conduzir-nos à aplicação, nos detêm numa prazerosa “masturbação intelectual”, responsável por situações de perniciosa estagnação. Importa recuperar o princípio evangélico de que é pelo fruto que se conhece a árvore. Não se trata, portanto, de condicionar o ser ao fazer quanto de perceber que o ser se revela e se verifica no fazer.

Não estamos imunes à onda do pragmatismo e do eficientismo. Preocupamo-nos demasiadamente com a visibilidade e, não raras vezes, assumimos atitudes triunfalistas e prepotentes. Francisco recorda que somos chamados a ser irmãos e menores e que nisto consiste propriamente nossa missão evangelizadora. Importa recuperar a gratuidade fundamental da nossa existência, expressão do dom livre e desinteressado de Deus. Discernir em cada situação a presença discreta de Deus que nos desafia e interpela.

Ver as diferenças não como ameaça à unidade, nem como sintoma de uma comunhão perdida. Acolhê-las, ao contrário, como expressão da multiforme e fecunda graça de Deus. Não apenas suportá-las, numa atitude de indiferença, por vezes, reveladora de uma tácita cumplicidade. Mas assumi-las como ocasião propícia para se deixar surpreender pelo Deus de Jesus. Isso só é possível para aqueles que, sabiamente, aprenderam a suspeitar de si mesmos e dos próprios projetos. E perceberam que a diferença do outro, muitas vezes, pode se tornar oportunidade privilegiada de enriquecimento e de amadurecimento.

Para tanto, é necessário que nos proponhamos a reconstruir nossa identidade interior. Resgatar o mistério da própria vocação mediante a escuta silenciosa da Palavra de Deus e a participação devota à Eucaristia. Redescobrir, através da leitura atenta e da meditação da Palavra de Deus, que Ele irrompe na nossa vida cotidiana de formas e modos cada vez novos e que nos interpela a realizar sua vontade.

Celebrar a Eucaristia como memória do Mistério pascal de Cristo que se recria na vida de cada um de nós e das nossas fraternidades. Somente em tal caso a Eucaristia será experimentada como aquele alimento que nos revigora no esforço em “fazer o que sabemos que Ele quer e de querer sempre o que lhe agrada” (Carta a toda a Ordem, 50). Somente enquanto alicerçados sobre uma formação espiritual sólida, seremos capazes de reconciliar as diversidades presentes em nossas fraternidades e províncias.

Somos chamados, hoje mais do que nunca, a recuperar os votos na sua força libertadora. Não são, em primeiro lugar, sinais de uma carência que deve ser abraçada numa atitude de ascetismo heróico. São, na verdade, expressão de um amor maduro, desinteressado, generosamente predisposto a suportar todo e qualquer sacrifício. Não devemos, portanto, nos comportar como pessoas castradas na sua humanidade. Os votos, quando vividos na sua integralidade, deixam transparecer aquela humanidade mais genuína que, como germe, se esconde no âmago de cada um. Eles testemunham uma sadia experiência de êxodo: libertam-nos da idolatria do poder, do ter e do prazer egocêntricos e nos propiciam o encontro com o outro na sua irredutível diferença.

Olhando para a realidade das nossas províncias, surge quase espontaneamente a pergunta: “Será mesmo necessário agir sozinho para poder ser criativo?”. O que fazer para não nos deixarmos sucumbir face à tentação sedutora da estagnação ou da estéril repetição do passado? Somos suficientemente contemplativos a ponto de discernir em cada acontecimento uma senda que conduz a Deus e de acolher com generosidade os inúmeros apelos que Ele nos lança em meio a tantas situações que constituem o nosso cotidiano mais ordinário? O que fizemos daquela ousadia que nos fez abraçar a vida franciscana? Por que nossas fraternidades se deixam contaminar pelo vírus de um uniformismo que amesquinha e asfixia?

Entre tantos desafios que nos são colocados, talvez o maior de todos seja justamente o de restituir credibilidade ao nosso projeto de vida. E isto requer ousadia. Não podemos nos omitir nem mesmo postergar esta incumbência às gerações futuras. É fundamental que assumamos uma atitude de diálogo com nossos reais interlocutores. Que estejamos dispostos a ouvi-los com respeito e caridade, conscientes de que temos tanto a aprender deles. Que saibamos discernir, a exemplo dos nossos pais na fé, “as sementes do Verbo”, a secreta presença de Deus no mundo moderno e nas demais religiões e culturas. Que estejamos abertos a promover, juntamente com todos os seres humanos de boa vontade, relações mais justas e fraternas, no respeito pela liberdade e dignidade de cada pessoa.

Esta atitude dialógica assume feições muito concretas no relacionamento com os jovens que pedem para serem admitidos à nossa experiência de vida. Não há dúvida de que cabe a nós propor-lhes a riqueza da nossa tradição cristã e franciscana. É preciso, todavia, respeitar e valorizar a “recepção criativa” testemunhada por eles ao encarnar o carisma franciscano nas concretas situações em que vivem e segundo desafios e indagações inusitados. Não tem sido esta a dinâmica do processo histórico de constituição da nossa mais genuína tradição franciscana?

Estamos imersos num mundo em constante transformação. Precisamos vencer o medo e a inércia que paralisa nosso caminhar. Para estarmos à altura dos inúmeros desafios do tempo presente é preciso, em primeiro lugar, alargar nossos horizontes para além das preocupações com a própria sobrevivência e com a eficiência antropocêntrica. Necessário se faz, portanto, rever nossos critérios e projetos. Somos convocados a fazer memória do nosso passado, deixando Cristo irromper em nossa vida através do Seu Espírito Vivificante. Francisco dizia que o Ministro Geral da Ordem era o Espírito Santo. A razão de tal escolha não residiria propriamente no fato de ser Ele aquele que “faz novas todas as coisas”?


A vida no Espírito

Albert Chapelle, SJ (*)

Não se pode estritamente falando caracterizar a “espiritualidade” cristã como experiência ou como cultura ou como ideologia. O termo parece hoje um tanto impreciso ou ambíguo, visto sugerir teorias e práticas de tipo religioso sem indicar no entanto a vida na Aliança e no Espírito de Deus.

A vida espiritual do cristão católico recapitula em gestos e palavras a história da salvação, a dispensação da revelação. Cada pessoa é chamada a viver singularmente a plenitude da economia divina. A vida no Espírito é comunicação a cada um por todos da totalidade do Mistério.

Na fé se recebe a vida no Espírito Santo, na luz da fé ela se deixa pensar. A experiência individual ou a psicologia religiosa não têm capacidade para aperceber-se da comunhão na vida divina concedida aos fiéis de Nosso Senhor Jesus Cristo. A vida cristã, visto significar participação no mistério divino, é tão misteriosa quanto este. Ela participa amplamente na plenitude de sua graça; mas a consciência que ela tem de si mesma é sempre inadequada diante do mistério que a suscita, a habita e a arrasta em sua órbita. As lembranças e a compreensão de cada pessoa são condicionadas por nossas peculiaridades humanas. Somente a luz da fé na revelação divina coligida na Escritura e a Tradição ensinam ao cristão aquilo que ele vive. Somente a fé lhe abre a porta que dá acesso ao segredo da sua vida no Espírito.

Para meditar teologicamente sobre a “espiritualidade cristã”, nossa vida no Espírito Santo de Jesus Cristo, deixaremos que nosso olhar acompanhe o movimento da revelação divina. Ele é que propriamente caracteriza a vida espiritual do fiel cristão e sua inteligibilidade. Nossa reflexão vai deste modo se articular nos seguintes momentos: 1) a vida espiritual nos foi dada gratuitamente na história da salvação; 2) é recapitulada em Jesus Cristo; 3) oferecida e celebrada na Eucaristia pela Igreja; 4) é comunhão na intimidade trinitária.

O plano acima esboçado permite adivinhar aquilo que nosso discurso não poderá detalhar totalmente: o agir cristão alicerçado nas virtudes e nos dons do Espírito, bem-aventuranças e frutos do Espírito. Por vida no Espírito Santo queremos referir-nos acima de tudo ao ser cristão, a fonte do seu agir. Não iremos evocar tampouco os atos habituais da vida cristã: a oração e os atos de misericórdia espiritual ou corporal. Vamos refletir, nesta meditação teológica, sobre o movimento que anima a vida espiritual de cada pessoa, tal como se desenvolve e se condensa na economia da salvação.

História e Espírito

O dom do Espírito nos antecede como uma graça, ele nos precede na história. Vida espiritual não se improvisa, não tem sua origem em si mesma, não pode haurir água viva em sua própria fonte. É recebida do Alto; brota como toda vida das gerações e dos partos da história.

A história da salvação é o desenrolar do plano previdente divino que se revelou a partir da criação e da eleição de Abraão. Ela se deixa percorrer de novo integralmente por aqueles que Deus chama para acolher o seu dom original e reconhecer a eleição com a qual foram agraciados. Tal como a história da salvação, a vida espiritual é opção de Deus, promessa e cumprimento, queda e arrependimento, ruptura e renovação da Aliança indefectível. Como toda a história da salvação, a nossa vida espiritual deita suas raízes em uma humanidade vulnerada, mas sempre vivaz, que deve ainda e sempre de novo ser educada para a sabedoria. Tal como a história sagrada de Israel, a vida espiritual de cada fiel cristão (ã) se inscreve na carne e dela recebe a graça de comparecer diante do seu Criador. E graças a outrem que a história se constrói, é do outro, daquele que nos precede, que nos instrui e nos ensina, que se edifica toda vida cristã.

Essa docilidade à tradição recebida dos antigos não caracteriza apenas a perpétua “deuterose” (do gregodeuterosis = repetição) que forjou a história do povo de Deus no Primeiro Testamento e no Segundo. A mesma docilidade à voz viva do Evangelho qualifica a humildade constitutiva da vida no perdão e na esperança. É pelo Espírito Santo e seguindo a trajetória de suas operações salutares que a vida cristã se deixa conduzir e iniciar à caridade.
A Sagrada Escritura atesta esta ação do Espírito na história da humanidade como uma revelação do Verbo de Deus na palavra e na ação dos seres humanos. A vida espiritual não pode, portanto, ser um grito primal dado que é uma resposta articulada à Palavra que a precede, a acompanha, a sustenta e alcança. A vida no Espírito é a escuta da primeira palavra sobre o amor: “Ouve, ó Israel, amarás o Senhor teu Deus … “, e a história da salvação não atinge o seu termo sem que a esta palavra venha somar-se este segundo apelo ao amor: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Amarás o Senhor … , amarás o teu próximo …, história impossível, dom do Espírito. Nossa vida espiritual só se realiza quando se retrata na indistinção dos inícios; ela é uma fonte de água viva, impulso e doação até o fim. Não significa recolhimento em uma interioridade vazia, o mutismo que parece indiferença diante das desgraças do mundo e da felicidade do cristão. A vida no Espírito é silêncio da escuta e resposta aplicada de um Fiat: vida espiritual é caridade.

Esta a lição da história, este o fruto do Espírito. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,34).

A recapitulação em Jesus Cristo

O mandamento novo trai o Coração daquele que é sua fonte. Dá testemunho do Homem Deus que ama como homem com uma caridade divina [agapé] e convida os irmãos ao mesmo amor. A ordem da caridade caracteriza a vida espiritual e manifesta a grandeza autêntica de Nosso Senhor Jesus Cristo. A vida no Espírito é também vida em Cristo, por Cristo e com Cristo. Ele é o Deus Verdadeiro: a união a Cristo faz a verdade da vida no Espírito. O Senhor – nosso Servo Sofredor – é o Deus que se deve amar de todo o coração, com toda a nossa mente, com toda a nossa alma e com todas as forças. Ele é ao mesmo tempo o mais próximo e o mais distante próximo que temos de amar como a nós mesmos.

Vida espiritual é o amor do Verbo que veio na carne. Cada um se deixa seduzir por um dos inúmeros traços do rosto de Cristo. Ele é o salvador e o esposo, o mestre e o amigo, o irmão e o companheiro de peregrinação terrestre. A vida espiritual de cada pessoa habita como que em seu lugar próprio, e mesmo talvez sem o saber, um dos mistérios da vida de Nosso Senhor, da sua Encarnação e sua Natividade à sua Paixão, Morte e Ressurreição. A mansidão e a humildade de seu coração alimentam a nossa vida no Espírito.

Este esplendor se revela à noite. A nossa vida no Espírito está escondida com Cristo em Deus Pai. Seu Nome talvez esteja em nossos lábios, sem no entanto contemplarmos a sua glória. Nós o amamos, e no entanto não o vimos ainda. Mas esses mistérios do ocultamento do Verbo na infância humana e na paixão de morte atestam a sua proximidade inalienável com a condição humana. Ele não marca nenhuma distância nem ratifica nenhum afastamento.

Todo espaço imaginado vazio fora da presença e da atuação de Jesus Cristo é privação de Deus, extinção do Espírito. Sem Cristo nada podemos fazer nem viver a espiritualidade cristã. Esta perde o vigor e perece quando se separa – por pouco que seja – da sua Fonte, da sua Cabeça, da Vide Verdadeira, ainda que fosse em nome da abstração do sensível, da fascinação do Uno, da infinitude do pensamento ou da imensidão do coração. Fora do olhar de Jesus Cristo, não existe vida espiritual. Sem o brilho da sua face, ficamos sem a luz sobre Deus e o mundo.

A vida espiritual do cristão e da cristã se vive pessoalmente, de coração a coração, de espírito a espírito, no corpo a corpo humano com o Anjo. Todo desconhecimento de Jesus Cristo é obliteração da singularidade pessoal, e a submersão na impessoalidade deixa a criatura sem Deus e sem esperança. A vida espiritual do (a) cristão(ã) é a emergência para fora do cósmico ou do inconsciente, encantamento da pessoa diante do seu ser que é dom. Fora de Jesus Cristo, não há salvação para a pessoa nem para o amor. Fora de Jesus Cristo não se tem acesso a Deus. Ele é o Sumo Sacerdote do nosso único sacrifício.

A Eucaristia

A vida no Espírito é dádiva divina, é crística e eucarística.
A vida na Aliança é concedida na história como a graça e o sacramento da nossa redenção. Ela se realiza no Ato de Cristo e no dom do Espírito Santo. Encontra seu termo e também sua raiz na Obra pela qual se estabelece, se renova e se consuma a união a Deus, na qual consiste a nossa bem-aventurança. Esta obra santa da bondade divina é o sacrifício de Cristo, caso aceitemos a definição de Agostinho (cf. Cidade de Deus, X). Graças a este sacrifício se abre a porta da intimidade divina e a união a Deus nos é oferecida como o dom paterno e fraternal de uma filiação adotiva. A vida no Espírito, deste modo, é sacrifício pascal, alegria do acesso à intimidade divina e ao seu amor mais forte que a morte; prova do desarraigamento do egoísmo assassino, libertação do mal e reconhecimento da graça.

A moral e a ascese cristãs se desenvolvem sob o signo da Cruz gloriosa, que tem na Eucaristia da Igreja seu memorial e seu sacramento cotidiano. A vida no Espírito que nos assimila ao Ato salvador de Jesus Cristo vai levá-lo em nós à sua plenitude. O único sacrifício do Filho Unigênito não se repete, mas abraça e integra no seu ato de oblação todos os irmãos que o Pai lhe confia geração após geração. Elevado acima da terra, na Cruz, Ele atrai a si todos os seres humanos, dá-lhes sua vida, compartilha o amor e de todos faz um só Espírito e um só Corpo. O memorial sacramental do sacrifício redentor, a Eucaristia, faz a Igreja, congrega-a e a une a Deus Pai.

Aquele que se entregou uma vez para sempre se oferece todos os dias à bondade do Pai para nos integrar na mesma oferenda cotidiana. Viver no Espírito de Cristo é estar associado, é associar-se a este gesto de reconciliação. É todo dia, e a cada hora, receber e retribuir esse amor criador, sem medida nem limites.

A vida no Espírito é eucarística. É cooperação voluntária na obra de salvação do mundo. É o impulso de uma vida que se entrega também como a de Cristo, o dom do coração que paga amor com amor. É comunhão eclesial no amor (agapé) derramado em nosso coração pelo Espírito que nos foi dado. Pela graça do Espírito levamos em nossa carne a superabundância do amor prodigalizado na Paixão de Jesus; construímos o seu Corpo. N’Ele congregados, louvamos, bendizemos, adoramos e damos glória Àquele pelo qual, no Espírito Santo, recebemos o querer e o fazer. Nossa comunhão vem a ser o sinal e o instrumento da Aliança com nosso Criador e Redentor. Em ato de união e de oferenda, a Igreja faz a Eucaristia; celebra o sacrifício que a santifica; dá graças pelo Autor da graça que a configura a si e a une a si como Esposa.

A vida no Espírito é dom recebido e a ele responde uma comunidade que não suporta nem confusão nem separação. Essa vida é o inderrogável face a face de uma Aliança; conhece a distinção e o respeito próprios da união conjugal. A vida na Eucaristia discerne no sangue derramado o presente dos esponsais divinos. Exala sempre o violento perfume do sangue derramado, do martírio. A vida espiritual não quer dizer apatheia (a insensibilidade filosófica do estoicismo), ela estremece sempre diante da emoção suplicante, intercede, solicita, procura, pede, mas também sabe dar e abandonar, pois é a vulnerabilidade do amor.

A adoração do Eterno, no templo da Igreja e das almas, é reconhecimento do Amor que move o céu e a terra; é oblação propiciatória e súplica desolada, pois o Amor não é amado. Desolação e trevas de quem se acha, no banquete eucarístico, sentado à mesa dos pecadores. Consolo e universal complacência do Espírito, visto que em cada filho dos homens o Pai dos céus reconhece o seu Filho Bem Amado.

A vida eucarística é renovação incessante e transbordamento de um amor que assume as feições da piedade, da compaixão e da misericórdia sem perder o impulso da dádiva e a alegria da fascinação do Criador diante de sua criatura, do Pai das misericórdias diante dos filhos que gera no Filho Unigênito.

A vida no Espírito é eucarística e eclesial, oblação mortificante e comunhão na paz, ministério de adoração e intercessão, alegria dos esponsais, filial intimidade. A liturgia sacramental pode ser discreta, até secreta, no coração dos fiéis; ela é a fonte e o ápice da vida cristã: abre a porta que dá acesso a Deus. Vida espiritual é a iniciação à vida trinitária.

A vida trinitária

A vida espiritual cristã não é feita à medida humana; não é determinada pela experiência corporal ou psíquica, mas exige, sem dúvida, retidão moral. Não se reduz, no entanto, à moralidade. Mais a suscita do que dela resulta. Não é sabedoria racional, intuição inefável, ciência oculta; nem tampouco é um feitiço do mundo ou magia dos sentimentos. Dócil ao Lógos toû stauroû, à Palavra da Cruz (a pregação de um Messias Crucificado: 1 Cor 1,18), a vida no Espírito é no Filho Bem Amado comunhão na intimidade do Pai. O Verbo de Deus assumiu a carne humana e se fez homem para que o ser humano ganhasse a vida nova e a divinização.

Esta comunicação da vida divina tem o realismo das mais surpreendentes palavras do Evangelho: Felizes os pobres no espírito … amai os vossos inimigos … Ela é participação na vida d’Aquele que está escondido neste mundo, na sua providência constante, na sua sabedoria criadora, no seu amor invencível, inexaurível. As exigências comuns da caridade evangélica dão testemunho dessa participação no amor divino, sobrenatural: amai-vos uns aos outros como eu vos amei, com amor infinitamente santo, indefinidamente vulnerável com que vos amei. Se a paciência nos permite possuir nossas almas, é porque tem no Espírito a eterna garantia do Criador dos céus e da terra, d’Aquele que chama pelo nome as estrelas e os eleitos.

A vida no Espírito nos é dada na história, por Cristo, como também a Eucaristia de sua Igreja; é divinização e participação por graça naquilo que Deus é por sua própria natureza. Deus por participação: eis a meta a que é chamada a criatura humana. Mesmo assim, não somos menos humanos, visto que o Cristo nos revela em sua Pessoa este admirável comércio de aliança e de esponsais que faz do ser humano o parceiro bem amado do seu Deus. Eis o mistério absoluto, e tão simples, de que participamos por graça, convidados à simplicidade do olhar que reconhece em cada dom o bem único e primeiro, em cada presença a mesma Presença do Pai, em cada obra e em toda paixão a paciência do Verbo Encarnado, em toda intimidade um transbordamento da vida do Espírito Criador.

Embora seja ainda humana, a vida espiritual é também santa e divina. É vida. Portanto, gerada. Nasce do Pai de toda luz e toda bênção. Ele nos gera porque é Pai. Gera-nos em seu Filho Unigênito no qual encontra sempre toda a sua complacência. Filhos no Filho, um só e mesmo Filho, esta é por graça adotiva a condição dos filhos dos homens amados pelo Pai n’ Aquele que é por geração eterna o Filho bem Amado.

Se nossa vida é Cristo, é para ser um com Ele e n’Ele no Amor do Pai que o enviou. Como Ele é um com seu Pai e o Pai um com Ele, somos um n’Ele, identificados com Ele pelo Espírito Santo, pelo Amor comum do Pai e do Filho. Não menos amados que Cristo, dado que totalmente amados n’Ele; não menos simples que Ele, dado que estamos n’Ele, o Único, únicos como Ele.

A vida cristã eucarística tem a densidade da perfeita unidade do Pai e do Filho no Espírito de poder e paz. Como jorra do Uno e do Outro, como testemunha e penhor eterno da unidade divina, o Espírito Santo transborda para fora de nós que, amados no Filho, amamos o Pai que nos leva de volta a seu Filho que veio na carne. O Espírito Santo que nos habita procede, jorra do Pai e do Filho; procede e jorra também de nós, dado que somos um só Filho em Jesus Cristo.

Cada um de nós, único, manifesta uma singular tonalidade do amor divino e mostra sob os olhos encantados do Pai e do Filho um rosto original do eterno amor. Dignidade singular da pessoa humana que, pela graça e em Cristo, concede ao Pai amar Aquele que Ele gera e ao Filho amar Aquele para o qual está voltado desde toda a eternidade e por toda a eternidade. Inimaginável responsabilidade concedida a cada pessoa por pura graça, gratuitamente, por acréscimo. Em Cristo cada pessoa concede ao Pai gerar e ao Filho ser Amado na docilidade e no amor. No Espírito Santo, cada pessoa, pela superabundância do Amor, tem o poder de dar ao Pai e ao Filho ser Deus, o nosso Deus.

As palavras são impotentes para dizer a simplicidade deste amor eternamente proveniente, sempre inventivo, jamais cansado de se surpreender e encantar-se, pois é o Amor do Pai. Simplicidade escondida do amor, cuja sabedoria filial não se deixa surpreender sem por sua vez se entregar e se dar sempre de novo, e jorrar sem fim, sempre de novo. Jamais cansado de adivinhar e acorrer, de se abandonar e renovar-se.

Na intimidade da vida trinitária, a vida no Espírito une na mesma dinâmica o Pai e seus filhos, o Criador e todas as criaturas. O amor [ágape] celebrado pelo Apóstolo Paulo (cf. 1 Cor 13) abarca no mesmo amplexo Deus e o próximo. É o amor de Cristo que nos arrasta irresistivelmente. A espiritualidade cristã ignora a indistinção da unidade abstrata do múltiplo pelo eros da razão humana. Vive da unidade simples e viva cuja sabedoria, cujo segredo, somente a ágape (o amor) divina conhece.
O(a) fiel cristão(ã) vive da fé e na fé. Pela fé, na sua obscuridade e em seu pudor, a vida espiritual se deixa iniciar no mistério de Deus e dos seres humanos, no mistério do Emanuel [Deus Conosco].

Cada um de nós se sente mais afetivamente marcado por este ou por aquele traço da inexaurível riqueza que constitui a nossa vida. Ninguém consegue experimentar em um só relance e cada dia todos os tesouros da sabedoria e da ciência revelados no coração de Jesus Cristo. Mas para o louvor da sua glória, sentimo-nos obrigados a dizer a verdade do que cremos, por menos que o sintamos, e alegrar-nos com o tesouro que nos dá vida, para não desperdiçá-lo mais.

Artigo publicado na Revista Grande Sinal, de propriedade da Província Franciscana da Imaculada Conceição, editada pela Editora Vozes.

(*) Pe. Albert Chapelle, jesuíta, que durante muitos anos colaborou na revista Vie Consacrée, com valiosas reflexões sobre a vida consagrada e a espiritualidade cristã, faleceu em janeiro de 2003.

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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