FRANCISCLAREANDO | Cuidar da luz

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O saudoso poeta cantor, o imortal Luiz Gonzaga, cantando as preocupações do povo nordestino dizia: “Chegou mês de março que é o mês preferido do santo querido Senhor São José…” São José, juntamente com a Plena de luz, guardião da Luz do Sol da Justiça, da Fonte de toda luz nos ensina os caminhos do cuidado fiel e silencioso para que o brilho da Luz de Deus no mundo possa iluminar os recônditos mais escuros da vida da sociedade, possa iluminar e dissipar todas nossas escuridões, possa revelar a luz da verdade, iluminar os caminhos da justiça e do direito.

Março é também o mês de outra cuidadora da luz. A “mulher que acaricia, que amassa o pão, mulher na liderança e na revolução, que traz no peito nossa libertação”. Carícia, pão, mudança…tudo para conservar o brilho e o calor dos nossos olhos, tudo para manter a luz da vida acesa e brilhante. Mulher gestora e cuidadora da luz da vida, em todas suas acepções. Luz, dom divino primeira preocupação do Criador, ao criar o céu e a terra. Obra que, com toda a criação, Ele confiou aos nossos cuidados.

Entre as obras da criação, Francisco era especialmente agradecido pelo fogo e pela luz. No seu Cântico, os astros luminosos são os primeiros na louvação:

“Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão sol, que clareia o dia e que com a sua luz nos ilumina. Ele é belo e radiante, com grande esplendor; de ti, Altíssimo é a imagem.

Louvado sejas meu Senhor, pela irmã lua e pelas estrelas, que no céu formaste, claras, preciosas e belas. … louvado sejas, meu senhor, pelo irmão fogo, com o qual iluminas a noite. É belo e alegre, vigoroso e forte” (Ct. 3-4.8)

Francisco não condescendia no tocante à vivência da pobreza, pela qual ele fez brilhar a luz do evangelho na igreja e no mundo: “Em outra ocasião, o vigário de São Francisco mandou começar a construir, no mesmo lugar, uma pequena casa, onde os frades pudessem repousar e rezar suas horas … Quando a casa estava quase pronta, o bem-aventurado Francisco voltou àquele lugar e, estando na cela, ouviu o ruído dos que ali trabalhavam; chamando seu companheiro, perguntou-lhe o que estavam fazendo aqueles frades. Ele contou como era tudo.

Mandou chamar seu vigário na mesma hora e lhe disse: “Irmão, este lugar é modelo e exemplo para toda a Ordem; por isso, prefiro que os frades deste lugar suportem as privações e os incômodos por amor a Deus, e os outros frades que vêm aqui levem o bom exemplo da pobreza para seus lugares. Pois, se os que moram aqui satisfazem plenamente suas comodidades, também os outros seguirão o exemplo de construir em seus lugares, dizendo: Em Santa Maria da Porciúncula, que é o primeiro lugar da Ordem, constroem-se tais e tantos edifícios; também nós podemos construí-los em nossos lugares” (EP 8,1-7).

Clara, que a Legenda chama “luz de brilho mais claro que o próprio dia” foi, segundo a Bula de Canonização, “preclara por seus claros méritos…”. Ela soube cuidar da luz com que Deus a havia ornado desde seu nascimento. As Fontes testemunham sua docilidade ao Espírito que a conduzia, deixando-se moldar por Ele e vivendo intenso e profundo espírito de oração. Pelas mesmas Fontes sabemos que, desde sua infância, era misericordiosa com os pobres, seja socorrendo-os em suas necessidades, seja privando-se de comidas finas para saciar os mais fracos. Não foi diferente com relação a suas irmãs. Inspirada no exemplo de Francisco, abraça a pobreza e faz brilhar no mundo a imensurável riqueza do Amor Divino:

“Admirável claridade de Santa Clara cujo esplendor de vida quanto mais se analisa, mais admirável se reconhece. Se já luzia no século, resplandeceu na vida religiosa. Se na casa paterna foi um raio luminoso, no claustro brilhou com todo o fulgor. Se brilhou na terra, resplandeceu no céu. Como era grande a força desta luz e como era forte a claridade do seu brilho! Apesar de encerrada no segredo do claustro, esta luz irradiava para o exterior; embora recolhida entre paredes de um mosteiro, esta luz era projetada para todo o mundo…

Como podia uma lâmpada tão clara e resplandecente permanecer sem alumiar com todo o esplendor a casa do Senhor? Como podia permanecer cerrado um vaso de tão preciosos perfumes, sem exalar o seu aroma na mansão divina? Quanto mais alquebrava o vaso de alabastro do seu corpo em recôndita solidão, tanto mais o odor da sua santidade perfumava a Igreja. Assim foi desde a juventude, quando ainda estava no mundo. Desde a primeira infância que desejou passar sem mancha por este mundo efémero e impuro. Guardou sempre com pudor imaculado o tesouro precioso da sua virgindade e era tão assídua na prática das obras de caridade e piedade que depressa o seu nome ultrapassou as fronteiras em redor. Vigilante no cuidado, esforçada no serviço, atenta na exortação; diligente para admoestar, prestimosa para se compadecer, discreta para se calar, madura no silêncio, experimentada em todas as coisas oportunas para um perfeito governo, querendo mais prestar serviço que dominar, e mais honrar do que ser honrada. Sua vida era instrução e doutrina para as outras. Nesse livro da Vida, as outras aprenderam a regra do bem viver… (BC 3-4a.5-13.39-41)

Clara, Francisco, desde seu lugar junto à Fonte da Luz, ajudem-nos a cuidar, como José e Maria, como cada mulher, a cuidar de nossa luz, de nosso fogo interior, a cuidar da luz de irmãos e irmãs para que ela brilhe e ilumine as escuridões que amedrontam, que nos impedem de “avançar com confiança e alegria, no caminho da bem-aventurança” (2In 13).

Escrito por: Irmã Maria Fachini – Irmã Catequista Franciscana

Fonte: CICAF.org.br

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