As mulheres na Igreja? No passado tinham mais direitos do que hoje.

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Artigo de Federica Tourn

“Jadranka Rebeka Anié também desmonta o conceito de Igreja como mulher, caro ao Papa Francisco: ‘A Igreja não é uma mulher, mas uma instituição dirigida por homens. O Papa pede às mulheres que ‘desmasculinizem’ a Igreja e lutem contra o clericalismo. No entanto, a divisão da Igreja em Apostólica-Petrina e Mariana favorece a masculinização e o clericalismo da Igreja porque vincula o poder de gestão, de ensino e de consagração à ordem sacerdotal, que é reservada apenas aos homens. A ‘teologia da mulher’ que o Papa apoia é uma teologia baseada nos estereótipos de gênero e, por sua vez, reforça os estereótipos de gênero'”, escreve Federica Tourn, jornalista, em artigo publicado por Jesus, janeiro de 2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.
Freira franciscana, teóloga e consultora científica no Instituto de Ciências Sociais Ivo Pilar de Split. Em 2017, recebeu o Prêmio da Fundação suíça Herbert Haag para a Liberdade na Igreja por sua pesquisa sobre teorias de gênero e o movimento antigênero. Ela é membro da seção croata da Sociedade Europeia das Mulheres na Pesquisa Teológica. Juntamente com a teóloga muçulmana Zilko Spahie Siljak fundou e dirige a escola online Feminismo e Religião.

Jadranka Rebeka Anié, freira franciscana croata cresceu na Iugoslávia durante o período socialista, quando ter uma educação religiosa significava fazer uma escolha contra a corrente, tanto que os filhos de comunistas ou figuras públicas não podiam assistir ao catecismo ou frequentavam as aulas escondido.

“Um contexto social que me lembrava os primeiros cristãos, quando a Igreja era perseguida, e que me marcou fortemente”, afirma. “Um período que está provavelmente na base da minha vocação, porque a Igreja a que me inspiro e à qual quero pertencer não é de fato a ecclesia militans, mas a Igreja que um dos meus professores de teologia definiu como ‘uma associação internacional de pecadores'”.

Seus pais na época não viam com bons olhos sua intenção de se tornar freira: “Eles se opunham à minha vocação porque consideravam as freiras servas dos padres”, lembra hoje. Rebeka, no entanto, está determinada e, tendo obtido o diploma, foge de casa e ingressa nas Irmãs Franciscanas da Província do Sagrado Coração de Jesus em Split. Ela imediatamente se apaixona pelos direitos das mulheres na Igreja e dedica a sua tese de doutorado às mulheres na Igreja na Croácia no século XX. “A luta pela igualdade das mulheres nas instituições eclesiásticas não existe na Croácia”, explica a Irmã Anié. “É claro que nas últimas décadas assumiram alguns papéis de liderança nas instituições eclesiásticas, mas ainda são invisíveis porque a questão dos seus direitos não é investigada. São mulheres, mas são tratadas como se não o fossem”.

Na Croácia também a teologia feminista ainda é demonizada pela Igreja: “Só se pode falar de teologia feminista se for para criticar”, ressalta a freira. “Se você a praticar, é rotulado como protestante ou acusado de propagar a fantasmagórica ideologia de gênero”.

No entanto, haveria uma necessidade extrema de teologia feminista “porque desconstrói a desigualdade de gênero partindo das Sagradas Escrituras até o papel das mulheres na Igreja hoje”, afirma a freira. Não só isso: “Prova de que modelos de gênero igualitários também são possíveis na Igreja e que as mulheres no passado tinham mais direitos do que agora”, uma consciência amplamente ignorada por aqueles que pensam que a desigualdade seja um fato histórico imutável. “Além da teologia feminista”, acrescenta Anié, “também precisamos da teologia de gênero, da teologia queer e da teologia interseccional, porque trazem para a discussão teológica questões que se originam na experiência concreta de pessoas que, devido à sua identidade de gênero, étnica, de classe e/ou outra, foram marginalizadas”.

Em suma, na Igreja fala-se muito sobre a importância da complementaridade entre homens e mulheres, mas ao mesmo tempo, ressalta a teóloga, “são silenciadas a existência das mulheres e as suas experiências”. Sobre o assunto, a Irmã Anié é ainda mais explícita: “Na Igreja, as mulheres são cidadãs de segunda classe. Atribuir a mulheres vários serviços e funções eclesiais, como faz Francisco, não ajuda muito porque essa prática se baseia na boa vontade de um Papa e pode ser abolida pelo seu sucessor”.

É preciso atuar em profundidade: “Dar às mulheres um lugar na Igreja e não reconhecer a sua dignidade, que comporta direitos iguais, significa construir uma casa sem alicerces ou um castelo de cartas”, explica a irmã.

Anié também desmonta o conceito de Igreja como mulher, caro ao Papa Francisco: “A Igreja não é uma mulher, mas uma instituição dirigida por homens. O Papa pede às mulheres que ‘desmasculinizem’ a Igreja e lutem contra o clericalismo. No entanto, a divisão da Igreja em Apostólica-Petrina e Mariana favorece a masculinização e o clericalismo da Igreja porque vincula o poder de gestão, de ensino e de consagração à ordem sacerdotal, que é reservada apenas aos homens. A “teologia da mulher” que o Papa apoia é uma teologia baseada nos estereótipos de gênero e, por sua vez, reforça os estereótipos de gênero”.

Se a exegese contemporânea reconhece que a mulher é imagem de Deus justamente como o homem, o ensinamento da Igreja ainda não chegou ao ponto de concluir que a mulher tem os mesmos direitos do homem. O espaço dado aos estereótipos depende mais uma vez do poder, e isso também vale para a ordenação de mulheres, que não deveria ser tratada como uma “questão feminina”, segundo a Irmã Anié, mas como um problema eclesiológico.

“Não se pode dizer que a Igreja não tem o ‘poder’ de mudar a tradição da ordenação, quando se sabe que nenhum papel na Igreja foi definido por Jesus e temos provas de que existiram no passado mulheres ordenadas. A Igreja sempre teve o poder de instituir e modificar as funções eclesiásticas, e usou esse poder para abolir a ordenação das mulheres”. A questão crucial do sacerdócio feminino não pode, portanto, ser resolvida utilizando o poder dos argumentos, conclui a freira franciscana, “mas utilizando o argumento do poder, porque quem tem o poder dita qual discurso teológico pode ou não ser aceito”.

Disponível: ihu.unisinos.br

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