Entrevista: As potencialidades da Conferência da Família Franciscana do Brasil, com Cleusa Neves, CFA

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IRMÃ CLEUSA NEVES, CFA

Irmã Cleusa Aparecida Neves, pertence à Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo. Atualmente está como Ministra Geral da Congregação e Presidente da Conferência da Família Franciscana do Brasil, quadriênio 2019-2023.

1. O que a XIX Assembleia Geral Ordinária representa para a CFFB?

Um momento eclesial e de encontro entre irmãos e irmãs que, além de se reunirem para fazer uma análise da caminhada do quadriênio 2019/2023, identificando os frutos produzidos, bem como a realidade e desafios a nível nacional e de cada Regional e Núcleo, traça novas prioridades para o próximo quadriênio, 2023/2026, tendo em vista questões que precisariam ser retomadas ou que ainda não foram trabalhadas.

Também é um momento oportuno para franciscanas e franciscanos, de diferentes regiões e realidades do Brasil, se encontrarem para louvar e render graças ao Altíssimo Senhor, pelo precioso dom de nossa vocação e celebrar a alegria do encontro, fortalecendo nossos laços fraternos como família franciscana que somos: “Neste modo de vida todos se chamem de irmãos…” (RNB 6,3).

Podemos dizer, ainda, que a Assembleia representa um novo despertar para a Família Franciscana, pois acontecerá dentro da perspectiva da sinodalidade, que o Papa Francisco tanto pede para a Igreja assimilar e também refletirá sobre o tema. Com a abordagem temática feita pelo assessor Leonardo Cardeal Steiner, OFM, Arcebispo de Manaus, cardeal da Amazônia, sobre Sinodalidade na Experiência Franciscana, desafios e luzes, conduzirá os participantes a refletirem sobre a importância da participação e comunhão na vida da Igreja e em nosso dia a dia. Portanto, poderá produzir uma renovação em nossos corações e mentes, em tempos em que caminhamos rumo ao Sínodo convocado pelo Papa Francisco.

2. No último quadriênio, quais foram as luzes e os desafios mais vivenciados pelo Conselho Diretor cessante?

Quando falamos em vivência, tratamos de algo que se experimentou vivenciando, ou seja, de algo que conhecemos não por ouvir falar, mas por ter sido um “processo de viver”. Assim sendo, de fato, muitas foram as luzes e, também, os desafios vivenciados pelo Conselho Diretor. Gostaria de iniciar destacando como um dos pontos fortes a experiência realizada junto ao Conselho Diretor, ou seja, de compromisso, envolvimento e dedicação de Irmã Rosa e cada um dos conselheiros: Frei Alex, Frei Gilson e Nivaldo. Assumimos o trabalho em tempos difíceis porque foi o período marcado pela pandemia. Aprendemos muito e limitações diversas nos aproximaram de dificuldades antes não experimentadas. Mas, o bonito foi que, na dinâmica de nosso trabalho sempre houve circularidade e compromisso. Creio que a melhor expressão é dizer que não “carreguei a CFFB sozinha”, fui ladeada por uma irmã e três irmãos que não mediram esforços e colaboraram com empenho e dedicação durante todo o período da caminhada.

Outro ponto que destaco como de uma riqueza incomensurável foi a possibilidade que tive de encontrar e conviver, ainda que por poucas horas ou dias, com irmãs e irmãos de diferentes lugares, realidades, idades e seguimentos (VRC, OFS, JUFRA e simpatizantes), mas que buscam e anseiam viver com autenticidade o ideal de Francisco e Clara. Guardo no coração e na lembrança experiências indescritíveis que em muito iluminam minha vida.

Mas a vida da CFFB tem uma ampla abrangência. De grande relevância, é a vida de esforço e doação de tantas irmãs e irmãos que assumiram o trabalho de coordenação dos diversos Regionais e Núcleos. Eles são de fundamental importância para o trabalho de dinamizar a vida e missão da CFFB nos mais diferentes espaços geográficos do Brasil. Onde a equipe existe e é atuante, há família reunida e em sintonia.

Tudo que dá vida e faz gerar vida, ilumina e há muitas luzes na caminhada da CFFB. Por isso, não poderia deixar de destacar também o serviço de apoio da CFFB que é o trabalho realizado na Sede por nossa secretária executiva, Ana Paula Silva e o do SERCOM (Serviço de Comunicação), pelo Rômulo Ferreira. Ambos desenvolvem atividades silenciosas que ecoam por todo o Brasil. Dentre outros, destaco ainda o trabalho realizado por Denise Marun, OFS, que é o de coordenar a Experiência Assis. Sua dedicação e esforço na parte logística da Experiência é uma tranquilidade para o Conselho Diretor. Muito importante foi o “resgate” das atividades do SAV Nacional, coordenado pela Irmã Soliane Aparecida Silva, CFA, temos uma equipe comprometida, que conta com a representação da VRC feminina e masculina (o que muitas vezes é difícil), OFS e JUFRA. E, por fim, temos o SINFRAJUPE, que continua atuante com a colaboração de Frei José Francisco Santos, OFM e sua equipe, Frei Rodrigo Peret, OFM e Moema Miranda, OFS.

Outra experiência realizada com bom êxito e que foi uma luz em tempos de pandemia, foi o Retiro Franciscano na modalidade online. Acompanhado por Irmã Rosa, conselheira, foi bem organizado, em relação à participação foi muito bom e o retorno que tivemos foi positivo.

Como desafios, em nível pessoal, destaco a dificuldade de conciliar meu compromisso com os trabalhos na Congregação, com as necessidades do serviço que a CFFB precisa na função que me foi confiada. Houve momentos em que precisei dizer não, quando o ideal seria dizer sim. Do ponto de vista institucional há diversos. Referente aos Regionais e Núcleos, junto com os conselheiros vivenciamos sempre uma inquietação e preocupação: o que fazer para colaborar melhor com a caminhada de cada um deles? Como ajudar na reestruturação daqueles que estão em crise porque não há uma coordenação e equipe formada? No que toca aos Regionais e Núcleos destaco dois grandes desafios: o primeiro é a nacional (Conselheiros/as) dar assistência marcando presença in loco. Neste caso, envolve disponibilidade de tempo e recurso econômico, o que torna mais difícil quando o Regional e/ou Núcleo é distante. O segundo, é encontrar em cada Regional ou Núcleo irmãs e irmãos que, de fato, queiram assumir a dinâmica da caminhada como coordenador/a e/ou integrante da equipe de coordenação.

Por fim, cito três pontos que diria, são os nós górdios da CFFB. O primeiro trata-se de cancelamentos de propostas por falta de quórum, a exemplo do cancelamento do Revigoramento/2023. Fica sempre a pergunta: por quê? Quais são os motivos reais de não haver irmãs e irmãos para participarem? O segundo, diria, é a impossibilidade de as Congregações/Ordens liberarem irmãs ou irmãos para assumirem os trabalhos na Sede da CFFB, Brasília – DF. E, o terceiro, refere-se a Sede Nacional da CFFB, seu espaço e localização. Penso que devemos analisar e maturar sobre a possibilidade de uma mudança.

3. Na próxima AGO serão suscitadas novas prioridades para a CFFB. A partir de sua experiência e observação diante da caminhada nos últimos anos tem sentido necessidade de transformações? Retornos? Mudanças? Quais os sinais dos tempos?

Penso que não podemos perder de vista as prioridades da CFFB, elas são basilares. A primeira delas é o cultivo do sentido de pertença; a segunda, refere-se à identidade, formação e comunhão e, a terceira, à ecologia integral.

Mudança sempre carrega a possibilidade de inovação. Considerando a realidade contemporânea com seus desafios próprios, do ponto de visto socioeconômico político e eclesial e a rapidez dos acontecimentos é preciso rapidez nas ações e propostas. É importante que a CFFB avance em todos os âmbitos, que busque parcerias, especialmente com os Centros de Espiritualidade Franciscana, as universidades e as faculdades franciscanas, bem como com outros segmentos da sociedade. De fundamental importância é o estímulo e convocação à participação de seus associados nas diversas atividades que a Família promove seja presencial ou na modalidade online.

Assegurar que a essência permaneça, procurando dar respostas às novas demandas e exigências é uma necessidade premente. Para que inovações aconteçam basta aguçar a criatividade, o espírito de pertença e de compromisso.

4. A XIX AGO é eletiva, ou seja, um novo Conselho Diretor será formado. O que lhe vem à mente quando pensa sobre as novas irmãs e irmãos que o irão compor? O que lhes diria?

Rezo para que o Espírito Santo suscite irmãs e irmãos para este trabalho. O que diria ao novo grupo? Começando pelo que é incontestável, que a função específica do Conselho Diretor é cuidar do que é nosso no sentido de que a CFFB pertence às franciscanas e aos franciscanos que residem no Brasil. Se voltarmos o olhar para o passado, encontraremos muitas irmãs e irmãos que fizeram grande esforço para chegar até aqui – CFFB, tendo cuidado com o aspecto institucional e buscando trabalhar a “identidade, formação e comunhão” franciscana para a realidade do Brasil. Essa caminhada revela-nos forte sentido de pertença e que passos foram dados, mas é preciso continuar a caminhada. Para prosseguir, precisamos de irmãs e irmãos que se disponham a dar o Sim, queiram e possam colaborar com a CFFB. O Conselho é composto por cinco pessoas, não é um número tão grande. As Irmãs e Irmãos que assumem esta missão, têm um “norte” a seguir, não pegam um barco a deriva. O que precisarão é buscar fidelidade aos objetivos da Conferência, tendo sempre presente as Prioridades traçadas em Assembleia. Ser presidente ou conselheiro/a da CFFB, é dispor-se a prestar um serviço fraterno em favor do Reino, da Igreja e, especificamente, da Família Franciscana do Brasil.

Esse trabalho exige dedicação, esforço e comprometimento? Sim. Mas, como afirma Vince Lombardi, “Comprometimento individual a um esforço conjunto – isso é o que faz um time funcionar, uma empresa funcionar, uma sociedade funcionar, uma civilização funcionar”. Para a CFFB funcionar, também é preciso comprometimento individual e um esforço conjunto.

5. Após concluir esse tempo de serviço junto à CFFB, o que a experiência vivenciada significou em sua vida pessoal e comunitária?

Significou muito. Diria que do ponto de vista profissional acrescentou mais conhecimento, seja pela realidade institucional, por tratar-se de uma Conferência, carrega a peculiaridade que a finalidade exige; seja pela abrangência, franciscanas e franciscanos de todo o Brasil. Outro aspecto que também possibilitou muita aprendizagem foi o trabalho de cuidar do processo de participação e comunhão entre os membros do Conselho Diretor e os Coordenadores Regionais e dos Núcleos, bem como fazer interação com a Sede, é uma busca contínua para encontrar equilíbrio nas decisões e encaminhamentos.

Do ponto de vista pessoal, diria que o maior ganho foi a proximidade com a espiritualidade franciscana e pessoas. Explico, a proximidade da espiritualidade franciscana, procurada e desejada por pessoas de diferentes realidades e instituições, foi um dos maiores ganhos para minha experiência de vida. Em outras palavras, “o ponto mais alto” foi a possibilidade de conviver com pessoas de diferentes idades, ideias, experiências, formação acadêmica, mas todas convergindo para o mesmo desejo: aprender de Francisco e Clara de Assis, como fazer para que o Evangelho escrito passe a ser vida em nossa experiência cotidiana na “modalidade franciscana”, ou seja, de forma comprometida e sem alienação (espiritualidade encarnada); sem indiferença (compromisso com os mais pobres e o cuidado com nossa Casa Comum) e sem fanatismo (extremismo religioso, consciência ingênua).

Na verdade, trata-se de uma riqueza e preciosidade que não se mede. Expresso em palavras diria que envolve: mistério (da presença de Deus em nós e entre nós); sonho (ligado ao diurno, que nos impulsiona a buscar); conversão (caminhada que exige mudança de mentalidade e sentimento – coração); comunhão (que implica unidade na diversidade). Por fim, dentre tantas outras palavras, esperançar, recomeçar, gratidão a Deus e à minha Congregação pela possibilidade da experiência.

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