Entrevista: O preconceito se vence com informação, com Frei José Bernardi, OFMCap

209

FREI JOSÉ BERNARDI, OFMCAP

Irmão leigo capuchinho, da Província do Rio Grande do Sul, natural de Paim Filho/RS, professor de teologia na ESTEF – Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana, atualmente membro da Fraternidade Fonte Colombo, em Porto Alegre/RS, onde faz parte da equipe de Coordenação da Casa Fonte Colombo.

1. Como surgiu a Casa Colombo em Porto Alegre – RS? Poderia mencionar alguns serviços e atividades realizadas?

Escutando aos apelos de Deus, em 1996, em Capítulo, a Província do RS decidiu colaborar no enfrentamento do HIV. A decisão capitular foi implementada a partir de fevereiro de 1999, quando se constituiu uma equipe de frades que, em sintonia com o governo provincial, desenhou um projeto e o implementou a partir de 30 de novembro de 1999, véspera do dia mundial de luta contra a aids. Surgia assim, a Casa Fonte Colombo. Casa porque se desejava que fosse um lugar de acolhida, de convivência, de cuidado. Não se desejava abrir um ambulatório, um albergue ou uma clínica. Pretendia-se abrir uma casa, um lar para quem estivesse com dificuldades de cultivar laços de solidariedade e de acolhimento. O nome Fonte Colombo se inspira na Legenda Perusina (LP 46-47): estar entre as pessoas com HIV e Aids era uma situação que traria incômodo e trabalho, ou seja, se lidaria com os mesmos estigmas e preconceitos que as próprias pessoas com HIV enfrentam cotidianamente. Por outro lado, não se estaria entre eles contando unicamente com as próprias forças, mas se poderia contar com a graça divina que haveria, não só de recompensar (como tem recompensado diariamente), mas também de manter a fidelidade dos irmãos que, aceitando o convite de Francisco, estivessem “satisfeitos no meio de gente comum e desprezada, de pobres e fracos, enfermos e leprosos e mendigos de rua” (RnB 9, 3).

A Casa Fonte Colombo é um centro de convivência para pessoas que vivem e convivem com HIV. Ela foi criada com o intuito de ajudar as pessoas a realizarem com perseverança o tratamento, única forma de viver com HIV. Para esse apoio oferecemos o acompanhamento de médicos, enfermeiras, assistente social, psicólogas, massoterapeutas, entre outros. Além dos atendimentos individuais, os usuários são convidados a participar de oficinas, grupo de adesão para fortalecer os vínculos e a autoestima. Também se oferece uma refeição diária na Casa e uma cesta de alimentos mensal. Ao mesmo tempo recebem informações para que possam acessar seus direitos. Todo esse trabalho, assim como as oficinas e palestras de prevenção são realizadas voluntariamente por profissionais que dedicam um tempo semanal para as atividades da Casa Fonte Colombo.

2. Com vocês a Família Franciscana do Brasil assumiu a prevenção e o combate ao preconceito junto às pessoas soropositivas. Quais são os valores franciscanos que contribuem para essa missão?

Um dos primeiros valores franciscanos que procuramos evidenciar e que contribuem para o cuidado e o tratamento é a fraternidade, buscando estabelecer com os usuários e com voluntários relações amistosas e de confiança. A minoridade é outro valor que sustenta a missão, pois nos ensina que todos somos vulneráveis e necessitados do apoio, da acolhida e do sustento dos demais. Especialmente depois da Laudato Si’, procuramos destacar a importância da Casa Comum e de quão necessário é sua preservação e cuidado. Tudo isso com gestos concretos e sem muitas palavras, como queria Francisco.

3. Nos últimos anos a quantidade de pessoas soropositivas aumentou. Quais faixas etárias e regiões no Brasil são mais afetadas e quais os motivos?

A cada ano no Brasil mais de 45 mil pessoas são infectadas pelo HIV. Segundo dados do Ministério da Saúde, a faixa de 20 a 29 anos é a mais afetada, sendo responsável por mais de 36% das infecções. Na população masculina, nessa faixa etária são mais de 40% das novas infecções. Os dados de escolaridade e raça/cor indicam que houve um recrudescimento nas camadas mais baixas. A transmissão é sexual em cerca de 82% dos casos, mas esse número deve ser muito maior porque 13% das notificações indicam como “ignorado” a forma de contaminação.

As regiões Sul e Norte são as mais afetadas. Pará, Amazonas, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rondônia são os estados mais afetados. Do mesmo modo as capitais desses estados são os municípios cujas taxas de detecção são as mais altas. Porto Alegre, por exemplo, registrou 7 vezes mais casos que a média nacional.

É difícil elencar os motivos ou compreender a dinâmica da epidemia. O que se nota é que a população mais jovem está sendo mais atingida, o que pode indicar falta de informação para gerações que não conheceram a aids nas primeiras manifestações e antes dos medicamentos. Isso também vale para as populações mais pobres, que têm mais dificuldade de acessar os serviços de saúde, bem como insumos de prevenção. Não há como negar que há pouco investimento em políticas públicas de prevenção e de educação que poderiam impactar nos índices de infecção. Por outro lado, nos últimos anos não houve investimento em organizações da sociedade civil que tem mais facilidade de dialogar com as populações mais vulneráveis.

4. Em 1999 surgiu a Pastoral da AIDS. Como Família Franciscana temos irmãs e irmãos engajados. Para quem deseja conhecer, se voluntariar, quais são os passos?

A Pastoral da Aids é um serviço da igreja e está organizada em praticamente todos os regionais da CNBB. É um serviço voluntário focado no acompanhamento de pessoas que vivem com HIV e, sobretudo, na difusão de informações adequadas para evitar o contágio e para diminuir o estigma e preconceito. Qualquer pessoa pode participar. Basta verificar se o serviço existe na sua paróquia. Caso não tenha na paróquia, veja com a diocese. Entrando em contato com um agente, receberá as informações de como participar. Boa parte dos grupos tem publicação em redes sociais, o que pode facilitar o contato com o grupo organizado mais próximo de quem deseja se engajar.

5. Para algumas gerações a prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis é desconhecida. Poderia indicar algumas prevenções e locais presenciais e virtuais confiáveis para ter acesso à informação e tirar dúvidas?

A indicação mais segura para obter informações sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis é um profissional de saúde ou uma Unidade Básica de Saúde. Ali também é possível acessar insumos de prevenção, além de vacinas para uma série de IST.

Passados 40 anos da epidemia, a ciência catalogou com exatidão as formas de transmissão e os modos de evitar o contágio. O HIV somente se transmite pelo contato sexual sem proteção, pelo contato com sangue contaminado ou da mãe para o bebê na gestação, parto ou amamentação. Por outro lado, desenvolveu-se uma série de estratégias de prevenção, que aparecem sob o nome de “mandala da prevenção” ou prevenção combinada. Esta estratégia proposta pela Unaids, órgão da ONU para as questões de HIV/aids, aposta na educação e na disponibilização de informações que ajudem o indivíduo a escolher a forma mais adequada de prevenção para si, considerando seu modo de vida, seus valores e suas escolhas. Ela prevê um conjunto de intervenções (biomédicas, comportamentais ou estruturais) para que as pessoas possam se proteger de IST e do HIV. A prevenção combinada sugere diminuição de parcerias sexuais, tratamento de IST, preservativos internos e externos, diminuição do estigma e do preconceito, combate à pobreza. Com o desenvolvimento dos medicamentos, descobriu-se que eles também são eficazes para a prevenção. Por isso, a mandala prevê o uso de medicamentos como forma de prevenção na PREP e na PEP. A PEP (profilaxia pós-exposição) é o uso de medicamento anti-HIV em caráter de urgência, após uma situação de risco, por somente 28 dias, e já está disponível no Brasil há anos. Já a PREP (profilaxia pré-exposição) é o uso programado, ou seja, a pessoa começa a tomar o medicamento antes da próxima exposição e toma por um tempo indefinido. Nos últimos tempos ficou famosa a fórmula I = I, ou seja, Indetectável é igual a intransmissível. Isso significa que a pessoa com HIV que faz seu tratamento de forma regular, chega a uma carga viral indetectável e com isso não transmite o vírus para outras pessoas. Por isso, a importância do vínculo ao serviço de saúde e a realização do tratamento para interromper a cadeia de transmissão do vírus.

Com relação a informações seguras e confiáveis, sugerimos os seguintes sites: abiaids.org.br; agenciaaids.com.br; aids.gov.br; unaids.org.br e giv.org.br, além claro do site da Pastoral e da Fonte Colombo: pastoralaids.org.br e fontecolombo.org.br.

6. Nossa espiritualidade é recheada de valores. Em algum momento de nossa vida pessoas soropositivas já passaram ou passarão, seja na comunidade, na faculdade, no trabalho, na rua. Como combater o próprio preconceito para apoiar e ser sinal de fé e esperança junto as nossas irmãs e irmãos soropositivos?

A regra básica, no meu modo de entender, é a empatia. Ou seja, pensar como eu gostaria de ser tratado se me encontrasse com HIV. Costumo dizer: HIV só dá em gente. Se você é um ser humano, você está sujeito ao HIV. O HIV e a aids deveriam ser tratados com mais naturalidade e menos moralização, a maior causa de estigma e preconceito. Da mesma forma que devotamos compaixão por alguém que tem diagnóstico de insuficiência renal, deveríamos tratar do mesmo modo quem se descobre com HIV. Ninguém pega HIV por conviver com pessoas com a doença. Do ponto de vista da fé, partindo da prática de Jesus, os cristãos e os franciscanos de modo particular, são convidados a manifestar o amor e a solidariedade partindo daquelas pessoas que são mais marginalizadas e excluídas. As pessoas que vivem com HIV estão nesse grupo, exatamente por causa do estigma e da discriminação. No fundo é a gente seguir o exemplo de Jesus e de Francisco, que deram sempre preferência de estar entre os excluídos: doentes, leprosos, pobres…

1 COMENTÁRIO

DEIXE UM COMENTÁRIO

Deixe seu comentário
Coloque seu nome aqui