Entrevista: Eleições 2022 em uma perspectiva franciscana, com Jefferson Machado, OFS

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JEFFERSON EDUARDO DOS SANTOS MACHADO, OFS

Carioca, durante muito tempo morador do Município de Nilópolis na Baixada Fluminense. Doutor em História Comparada pelo PPGHC/UFRJ. Coordenador de formação da Fraternidade Nossa Senhora Aparecida da OFS em Nilópolis. Professor de Franciscanismo no Curso de Verão do Centro de Espiritualidade da PROCASP, do Instituto de Estudos Franciscanos das Províncias Franciscanas Capuchinhas do Nordeste e da Pós-Graduação em Franciscanismo da Província dos Frades Menores Capuchinhos do Paraná. Um dos irmãos do coletivo negro ecumênico franciscano Diálogos da Esperança.

1. É de amplo conhecimento que nosso país atravessa em vários sentidos, sobremaneira politicamente, um momento profundamente desafiador. Com seu olhar e experiência é possível identificar quais são os maiores desafios?

O Brasil traz em sua História a marca da escravização de seres humanos. Após a libertação do povo negro não houve a preocupação em integrá-los à sociedade. Depois de mais de 100 anos de liberdade os efeitos desse momento de nossa história ainda nos fazem mal. Mas, qual o motivo de começar a nossa reflexão por esse tema? Precisamos refletir quais são as formas de combate dos problemas brasileiros. Temos a tradição de esconder ou fingir que não temos graves problemas que precisam ser debatidos pela sociedade, a fim de encontrarmos um caminho que faça nosso país ser mais justo e solidário. Então, esse seria nosso primeiro desafio: aprendermos a debater sobre nós mesmos.

Depois, temos que parar e olhar como estamos tratando o nosso povo, principalmente os mais vulneráveis. Temos alimento para todos? Todos têm acesso a saúde? Todos têm moradia digna? Todas as crianças têm acesso à educação de qualidade? As mulheres têm sua integridade física preservada? Nosso país parou de assassinar a juventude negra, maior vítima da violência policial? Paro por aqui, pois temos mais perguntas para fazer, que precisam ser respondidas.

2. Diante do carisma de Francisco e Clara, quais desafios saltam, ou pelo menos deveriam saltar, aos nossos olhos e nos mobilizar?

Francisco e Clara fazem parte de um movimento espiritual que tem uma visão cósmica ampla. Para ambos toda a criação faz parte do bem que representa a divindade. Por isso, tudo deve ser cuidado e preservado.

Alguns elementos de suas espiritualidades são fundamentais para uma vida melhor para a sociedade brasileira. Primeiro a pobreza que nos leva a viver uma vida humilde e desapegada. Assim como Cristo, que se entregou aos irmãos e irmãs, quanto mais desapegados mais solícitos seremos às necessidades dos outros.

O amor a Eucaristia é outro elemento importante. A humildade de Cristo ao fazer-se pão, alimento espiritual, faz-nos refletir sobre a importância de saciar a fome e a sede do nosso povo.

O cuidado com os leprosos, um grande exemplo de serviço, nos leva a ver a importância em cuidar da saúde e dar amor aos excluídos. Não precisamos de um país, ou seja, de um mundo que esteja acima de todos, pois nosso Deus é um Pai que não se coloca acima, mas a nosso lado, a fim de podermos caminhar de forma coerente.

3. Muito se fala nesses tempos em polarização e ideologização. Quais condutas e princípios você acredita que são inegociáveis às franciscanas e franciscanos diante do que está em pauta? Vamos citar dois exemplos: o armamento e a violência política.

Primeiro, devemos ceder para termos uma sociedade mais justa. É um absurdo sermos franciscanos e não sermos solidários. Não podemos crer que um país católico é um país que sufoca as experiências de vida diferentes das nossas. A sociedade, para nós, deve ser plural.

Quanto a questão armamentista, é um absurdo alguns entre nós apoie aqueles que liberam indiscriminadamente as armas em nosso país. Lembremos aqui a nota da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, assinada por Frei Fidêncio Vamboemmel, OFM, logo após o falecimento da Vereadora carioca Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, onde afirma que “Malditas as armas que ferem e matam”.

As armas são um símbolo da falta de diálogo e do ódio. A mensagem de nossos fundadores trata do amor e do diálogo. Lembremos aqui do caminho percorrido por Francisco para encontrar-se com o Sultão, em um momento onde as armas estavam sendo usadas.

A Ordem Franciscana Secular do Brasil, em 2019, também emitiu uma nota forte sobre o assunto onde afirma que “Novamente estamos sendo desafiados a darmos uma resposta firme em favor da Paz. Nosso lema e saudação nos impulsiona a dizermos SIM à vida e NÃO às armas e, por força de nosso carisma, não cabe qualquer outra interpretação diferente desta”. Tal documento nos mostra que mesmo entre nós ainda existem irmãos e irmãs que aderem a uma mensagem de ódio. Diante disso, não podemos fazer concessões. Nosso carisma é contra as armas.

Quanto a violência política, trata-se de mais uma das nossas mazelas ligadas ao fenômeno da violência. São políticos, ativistas, lideranças populares, lideranças indígenas e muitos agentes sociais que sofrem diversas formas de ataques ligados as suas atividades políticas.

Lembremos que o diálogo, como já tratado acima, faz parte da história de nossa caminhada. Se algum grupo político, não importa de onde, liga-se a um discurso de exclusão, de violência, de indiferença às mazelas humanas e que leva ao ataque contra outros irmãos e irmãs, não podemos com eles enfileirar.

Nosso lado é o da paz. Se não conseguimos enxergar isso, algo está errado em nossa vivência francisclariana. Lembremos das narrativas do Lobo de Gúbio e dos ladrões que assaltavam os frades. Francisco nunca orientou que a população ou seus frades agissem de forma violenta e indiferente a esses que eram resultado de uma sociedade injusta e sem fraternidade.

4. Tem-se muito zelo, por vezes dificuldades, em lidar com a temática da política institucional e partidária no seio dos movimentos religiosos. O que você diria para os irmãos e irmãs da Família Franciscana sobre esse desafio, e se temos, como recuperar esse espaço dentro da política, em especial ao considerar que somos uma família em sua maioria formada por leigas e religiosas?

Além de religiosos somos cidadãs e cidadãos e vivemos em sociedade, não vivemos separados. Nossas leis não são diferentes, ou seja, toda nossa vida está inserida no contexto social em que vivemos.

Como brasileiros e brasileiras temos que conhecer e entender como a política nacional lida com nossos temas fundamentais. Sendo assim, não podemos ficar alheios à vida política.

Em um país onde a construção da paz e da justiça está ligada a criação das chamadas políticas públicas, nós que temos em nosso “DNA” a busca de uma vida em que esses elementos cheguem a todos e todas, nós franciscanos e franciscanas, a partir de nossa devoção, devemos inteirar-nos e participar com nosso voto. Não podemos esquecer que nas eleições devemos ver quais candidatos e candidatas têm suas plataformas e histórias de vida ligadas às lutas pelo povo que sofre, pela paz e pela justiça.

Podemos também nos candidatar e participar de forma efetiva na construção da cultura de paz e justiça em nossa terra, lembrando que nos primórdios da vida franciscana, os então conhecidos como penitentes, por vezes eram escolhidos para serem responsáveis por diversas funções públicas que exigiam ética e responsabilidade. Isso se dava devido à forma como eram vistos pelos seus contemporâneos, isso é que deve levar-nos a entrar na política partidária.

Ao aderirmos a um partido devemos observar seu programa e observar se está de acordo com aquilo que são nossas bases espirituais. A maturidade é muito necessária para aqueles que abraçam essa caminhada. Não podemos ser inundados pelos vícios da política e sim impregnar a vida política de nossos valores, buscando sempre ser um farol em momentos onde ideias obscuras queram reinar.

Sendo assim, nossa participação é muito importante. Em nossas fraternidades devemos debater assuntos políticos, em momentos específicos, a fim de construir entre as irmãs e irmãos a consciência de quais devem ser os valores que devemos primar quando tratamos da coisa pública. Dessa forma, formando entre nós aqueles e aquelas que poderão ser representantes da população de onde vivemos.

5. A história brasileira é marcada no cenário político por fortes imersões de franciscanas e franciscanos em cenários regionais e nacional, na luta por Justiça social, paz e bem. Recordando Zilda Arns Neumann, Dom Helder Câmara, Chiara Lubich, qual o legado e quais ensinamentos deles para nós?

Então, nem todos seremos tão luminosos como estes irmãos e irmãs que beiram a santidade. Torna-se muito importante entender qual é o nosso papel na grande fraternidade humana. Eles entenderam de forma profunda o que devemos ser como cristãos e cristãs franciscanos. Ser franciscano, não é apenas rezar as orações de nossa devoção, participar das celebrações e viver trabalhando nas paróquias em dia de festa.

Somos herdeiros e herdeiras daqueles que já no século XIII abraçaram a ideia de dedicar suas vidas para cuidar dos excluídos e excluídas da sociedade em que viviam. Criaram hospitais, visitavam os doentes, trabalhavam nos leprosários, criaram pequenas escolas e dedicavam-se de forma radical a abraçar a todos.

Em um momento em que o mundo passa por uma profunda crise, principalmente o nosso país, devemos retornar à nossa História e reivindicar de forma prática o papel que fez-nos ser fiéis seguidores do Cristo. Nossas orações, encontros, celebrações e convívios devem frutificar em ações que nos levem a ir ao encontro dos leprosos e leprosas de nossa sociedade.

Foi isso que os irmãos citados acima entenderam. A fé no Cristo encarnado e crucificado levou-os a compreender que nossa missão é muito mais do que sermos profundos devotos. Francisco, Clara e os primeiros irmãos e irmãs penitentes entenderam que o mundo precisa de Deus.

6. Muito também se fala em autocrítica. Enquanto família, dentro da abrangência do seu olhar e lugar de fala, sobre quais pontos poderíamos nos questionar?

Creio que nós vivemos um momento de crise de identidade. Sei que não seremos aqueles e aquelas que vão viver como os irmãos e irmãs viviam, ou pelo menos como nos contaram como viviam, naqueles momentos iniciais de nosso carisma. Mas, temos bases que precisam ser nosso caminho. Ao abandoná-las, a fim de abraçar modismos e vivenciar expressões de fé que nada têm a ver com a nossa perdemos nossa autenticidade.

Como dizia Santa Clara: “Não perca de vida seu ponto de partida”. Muitas vezes queremos adequar as coisas para aquilo que cremos ser o caminho da Igreja. Na verdade, cada família espiritual tem suas bases e sua forma de atuação. Isso foi um problema em toda a vida francisclariana. Em nossa história sempre houveram mudanças de rumo que nos retiraram da trilha que deveria ser seguida.

Hoje vemos muitos de nós sem entender o que realmente devemos seguir. Precisamos, mais do que ter sentido de pertença ao movimento, entender a nossa identidade.

Sempre participamos de forma ativa do combate à pobreza, à desigualdade e pela busca da paz. Nosso papel é ficar ao lado dos que sofrem e não dos que oprimem. Ao ver irmãos e irmãs favoráveis à Ditadura, a torturadores, a pessoas que acreditam que só com o uso da força e das armas vão dar jeito nas coisas fico, sempre, muito decepcionado. Não é que tenhamos que aceitar tudo que tal corrente ou grupo político faz. A grande questão é que não devemos combater as falhas do sistema com propostas totalmente contrárias ao nosso ideal de vida.

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