Frei Francisco de Assis e a ética do diálogo e da hospitalidade. Artigo de Adriano Cézar de Oliveira

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“Assim como todo encontro que é capaz de transformar o sentido da vida, os encontros de Francisco se deram no concreto da vida e não numa teoria abstrata. Em todos esses encontros, Francisco demonstrou sua capacidade singular de integrar a realidade de todas as coisas com seu olhar místico e de experimentar a vida em comunhão, propondo-a para sua fraternitas em chave de minoridade, e deixando-a como herança eclesial à Igreja e a sociedade”, explica Adriano Cézar de Oliveira em conferência proferida durante a Semana Franciscana de 2022 do Instituto Teológico Franciscano (ITF), de Petrópolis.

 

Adriano Cézar de Oliveira é licenciado em Filosofia e bacharelado em Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Especialista em História da Arte Sacra pela Faculdade Dom Luciano Mendes, em Ciências da Religião, pela Faculdade Única, e em Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Pesquisador do grupo Arte Sacra Contemporânea: Religião e História do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo, da PUC-SP-LABÔ, e membro do grupo de estudos Marko Ivan Rupnik da Faculdade São Basílio Magno – FASBAM.

 

Eis o artigo.

 

Para início de conversa, abordar qualquer tema sobre Frei Francisco de Assis (1182-1226) é arriscar cair no “lugar comum” a partir de uma vasta produção religiosa e/ou acadêmica sobre o personagem mais ilustre da cidade de Assis e um dos mais importantes do medievo, cujos valores testemunhados impactam novamente a sociedade e o mundo católico a partir do Pontificado e Magistério do Papa Francisco (1936-). No entanto, a grandiosidade de seu legado e a beleza de sua personalidade jamais serão esgotados mediante qualquer abordagem por mais robusta e consistente que seja. Frei Francisco é intrigante a qualquer época histórica, por causa de sua originalidade e sua criatividade frente à existência e segue inspirando milhões de pessoas desde a prática religiosa ao modo de ver e agir no mundo.

Nesta perspectiva, é possível colher da vida e personalidade, do exemplo e dos Escritos de Frei Francisco, bem como de sua vastíssima iconografia – o que lhe garantiu o lugar de um dos santos mais figurados na História da Arte Cristã, ficando atrás apenas da Virgem Maria e de Jesus Cristo – algumas intuições básicas que podem iluminar nossa reflexão contemporânea acerca deste tema tão importante quanto urgente, o diálogo e a hospitalidade como posturas éticas e seu influxo no todo da vida e no cotidiano como epifania do ser em relação. Assim, alguns pontos de reflexão emergem do subterrâneo existencial à superfície, apresentaremos ao menos seis, passemos ao primeiro:

 

1. Sobre por onde começar: ou o multiverso contemporâneo

 

Ao modo de introdução, podemos destacar dois acontecimentos contemporâneos que mudaram – ou deveriam mudar – o eixo essencial do olhar humano sobre a vida e a história. O primeiro é o mais recente, a pandemia global da covid-19, conforme afirma a historiadora e antropóloga brasileira, Lilia Moritz Schwarcz (1957-), que “ao deixar mais evidente o nosso lado humano e vulnerável, (…) marca o final do século XX” [1]. Ainda neste ponto, é importante considerar a raiz socioambiental desta pandemia, que evidencia uma das facetas do impacto das populações humanas no ambiente marcando, portanto, uma nova era geológica, o chamado antropoceno. Complementando e desafiando este termo, a zoóloga e filósofa norte-americana Donna Haraway (1944-), propõe o termo Chthuluceno, que busca chamar a atenção para o subterrâneo, propondo o diálogo multiespécies e a construção da noção de ‘parentesco’ entre todas as coisas em vista de construir uma relação vertical e de sintonia para manutenção das espécies. A pensadora ainda chama atenção para as bactérias e fungos [2] como excelentes metáforas para pensar a sobrevivência da espécie humana. [3] Esse conceito e essa maneira de pensar tem a ver com a construção de ‘refúgios’ (ambientais, sociais, afetivos), (…) que criem conexões e aumentem nossa habilidade coletiva de agir e de responder aos desafios atuais.” [4]

 

O segundo ponto a ser considerado é antigo e conhecido, entretanto, atualmente se apresenta como uma alarmante preocupação, trata-se das guerras em várias partes do planeta, a eminente ameaça nuclear, e os crescentes movimentos armamentistas. Sobre tudo isso, Frei Francisco pode inspirar nossa reflexão, uma vez que, em sua juventude foi prisioneiro de guerra e depois abandonou as armas [5] e no entardecer da vida fez um louvor à terra e a todas as criaturas, em seu Cântico do Irmão Sol, conhecido como o “Cântico dos Cânticos” da Espiritualidade Franciscana. Refletir a partir destes dois pontos principais – assuntos suficientemente complexos e capazes de exaurir as últimas forças de nossa energia e esgotar nossa esperança – se faz de suma importância, exatamente porque nos mergulha no ventre do paradoxo da existência contemporânea, isto é, a emergência de viver integralmente frente ao esfacelamento do ethos cultural, o colapso das relações e o urgente cuidado com a casa comum.

 

 

O ser humano contemporâneo (cada um de nós), se vê perdido num labirinto existencial entre vozes dissonantes e dedos em riste, sinais evidentes da necropolítica na qual a morte está legitimada em nome do poder. Refém de uma cultura do descartável e geradora de desencontro, uma vez que imersa no imperativo econômico. Preso entre muros altos com medo da violência e enclausurado no seu falso eu. Envolvido pela des-globalização na qual o mundo se apequena e se esvai o senso de comunidade e engendra-se a expulsão do outro, sobretudo, o diferente. Inflamado por nacionalismos exacerbados e iludido de ser o intérprete último da verdade. Crente de uma religião fundamentalista, que ao invés de o religar ao Absoluto, com os outros e com o cosmo, por meio do cultivo de uma espiritualidade profundamente orgânica, o mergulha em sensações epidérmicas e em um subjetivismo alienante.

 

No pano de fundo de todas essas questões emerge uma entre tantas chaves de leitura possíveis, o amadurecimento da moderna concepção de dessacralização da natureza, do ser humano e das relações. Neste projeto, baniu-se Deus do horizonte para um lugar empiricamente inacessível, mercantilizou-se a natureza e objetificou-se o ser humano, rompendo o elã da possibilidade de uma vida integral marcada por relações abertas. Com a dessacralização, em visão ampla, abriu-se a possibilidade de manipular a realidade e tratar com utilitarismo o planeta, o ser humano e as relações de maneira fragmentada e frágil, incapaz de se sustentar. Em síntese introdutória, perdeu-se do horizonte a capacidade da relação e a da comunhão, com Deus como Pai, com os outros como irmãos, com a criação digna, igualmente, de salvação. Assim, abre-se espaço para o segundo ponto de nossa reflexão.

 

2. Sobre a capacidade de conhecer: ou conhecimento místico

 

No tempo em que viveu Francisco de Assis, a sociedade medieval também passava por uma grande transformação, marcada por um impulso e por rupturas, o sistema feudal se enfraquecia, havia um êxodo para as cidades, surgia o dinheiro, nasciam as universidades. No seio da Cristandade havia alianças e disputas pela hegemonia do poder. Na Igreja, em meio ao clima bélico das Cruzadas, surgia o evangelismo com fortes tendências reformadoras. Os leigos buscavam por uma vida espiritual centrada no Evangelho. Forjar, em meio a esse contexto, uma espiritualidade nova que consiga dar respostas concretas a esse câmbio cultural foi a tarefa das Ordens Mendicantes, especialmente a Ordem Franciscana, por meio do assisense Giovanni di Pietro Bernardone.

 

Desde o contexto cultural do século XIII à atualidade, a realidade sempre desafia e alguma novidade sempre insiste em despontar, a urgência de hoje é construir “novos areópagos” nos centros de decisão, na vida pública, na política, na economia – atualmente há a potente reflexão proposta pelo Papa Francisco acerca da Economia de Francisco (EoF) [6] –, nas universidades, no além-fronteiras, na concretude do cotidiano e no interior do ser humano. Essa necessidade perene, pode ser uma das alternativas possíveis frente ao desenraizamento e a dessacralização, o viver sem horizonte e o olhar fragmentado. Neste cenário, podemos lembrar a figura do russo Vladímir Serguéievitch Soloviov (1853-1900), filósofo, teólogo, poeta e crítico literário russo e sua “teoria do conhecimento integral, cuja premissa é a de que a verdade como tal deve abraçar tudo aquilo que existe, de modo que não é possível conhecer qualquer objeto de forma independente do todo. Por isso, o método empírico e o metafísico-racionalista, ainda que tenham a sua importância, são insuficientes. Se a verdade é um todo, se é unitotalidade existente, não pode ser uma noção abstrata; precisa ser conhecida desde dentro – é aí que se demonstra adequado o terceiro tipo de conhecimento elencado por Soloviov: a mística.” [8]

 

Na perspectiva de Soloviov, “a verdade não se alcança nem com os métodos de observação externa, fenomenológica, nem com uma reflexão racional, metafísica; a verdade é objeto de uma ‘visão’ que Soloviovmesmo chama ‘mística’. Esta última, porém, não é completamente incoerente e separada das duas formas de conhecimento precedentes; pelo contrário, dá a elas um valor e um significado, a fim de que a verdade seja ‘íntegra’.” [9] Esse olhar integral nascido do conhecimento místico e do cultivo da sensibilidade, foi muito bem vivido e testemunhado por Frei Francisco, o que nos atestam suas Bio-Hagiografias e seus Escritos. No epicentro da mudança do ethos cultural de seu tempo, Francisco viveu sua vida aberta às múltiplas relações, o que nos introduz em nosso terceiro ponto de reflexão.

 

 

3. Sobre a capacidade de viver plenamente: ou a vida em comunhão

 

No itinerário de aperfeiçoar a capacidade de conhecer e apurar o olhar, emerge outra necessidade, aquela de recuperar a capacidade de viver em comunidade, superando desde si, a autorreferencialidade. Esse processo foi vivido por Frei Francisco, e depois de o atravessar, atravessou a Igreja de seu tempo. A Igreja, quando se volta a si mesma, esquece de sua missão primordial, anunciar a comunhão e a salvação integral. Ser esse lugar da hospitalidade, do diálogo, da partilha dos dons. Francisco, depois de vencer sua autorreferencialidade, abrir-se ao dom de si mesmo, dos outros, do cosmo, de Deus Pai, relembrou à Igreja de seu tempo sua missão essencial e primordial e sua identidade, ser comunhão à luz da Trindade.

 

Essa concepção se expressa de maneira muito interessante na palavra russa sobórnost. Essa noção foi desenvolvida pelo poeta religioso russo Aléksei Stepánovitch Khomiakov (1804-1860). Assim “o conceito de sobórnost, um substantivo derivado da raiz sobor, que indica assembleia, comunidade, isto é, sintetiza uma noção de pluralidade na unidade sem a qual não há comunhão verdadeira. (…) “Em nossa maneira habitual de pensar, o ser é constituído antes da comunidade. Sobórnost assinala-nos que o ser é comunidade!”. Trata-se de uma ideia de bastante densidade antropológica, e ao mesmo tempo com sérias consequências eclesiológicas — sobor, aliás, é um correlato do grego ekklesía. A ênfase na sobórnost ressalta que a fé vem da experiência e não do raciocínio. Por isso, a Igreja não pode forçar ninguém a crer: ela só pode existir como comunhão de pessoas livres – só o amor é a sua garantia.” [10]

 

A conversão do jovem Giovanni di Pietro Bernardone, em suas muitas etapas [11], pode ser resumida na seguinte afirmação: o homem Francisco abriu-se à eclesialidade se tornando Frei Francisco e depois São Francisco! Hoje, abrir-se à eclesialidade, como propôs Frei Francisco, é responder concretamente e com vigor à sinodalidade, proposta pelo Papa Francisco. Fora da sinodalidade não há salvação! A vida em comunidade, isto é, em experiência de comunhão, sobretudo, pensando em comunidade cristã, comunidade planetária e ética global, nos prepara para o próximo ponto de nossa reflexão.

 

4. Sobre voltar à Frei Francisco: ou a vida fraterna em minoridade

 

Frei Francisco, foi descobrindo, paulatinamente, o que significava viver em comunidade, em comunhão, em vida fraterna. Esse processo foi forjado por meio de muitos encontros. No primeiro, com o leproso – banido para fora dos muros, afastado da relação, marginalizado pelos boni homines. Embora o causasse repulsa, um dia deixou-se atravessar pelo horror e teve o amargor transformado em doçura. Isso não se faz por meio de romantismo, mas no enfrentamento corpo a corpo. Francisco, deixou-se habitar pelo outro humano. [12] No segundo, em meio a escuridão de sua busca, encontrou-se com a graça divina. A partir de então o jovem Francisco deixou-se habitar pelo outro divino e se torna “restaurador” de Igrejas, sem ainda compreender com clareza as sendas que iria trilhar. Isso se dará, pouco a pouco, no cultivo de sua vida espiritual até seu Trânsito. [13] No terceiro, encontrou-se com os companheiros, os primeiros irmãos da fraternitas, com a necessidade constante do discernimento na e pela fraternidade como único caminho para viver o Evangelho. Deixou-se habitar pela comunhão. [14] O quarto encontro o veremos mais à frente. No quinto, ao final de sua vida, em atitude última de entrega, deixou- atravessar definitivamente pelo grande outro, desde a ferida de sua própria carne, compreendendo definitivamente o que significa a resposta de amor livre ao convite de se tornar filho no Filho. Assim como todo encontro que é capaz de transformar o sentido da vida, os encontros de Francisco se deram no concreto da vida e não numa teoria abstrata. Em todos esses encontros, Francisco demonstrou sua capacidade singular de integrar a realidade de todas as coisas com seu olhar místico e de experimentar a vida em comunhão, propondo-a para sua fraternitas em chave de minoridade, e deixando-a como herança eclesial à Igreja e a sociedade.

 

 

Desse modo, são intuições cravadas na memória franciscana o deixar-se habitar pelo outro – ou até mesmo atravessar pelo outro – o cultivo do diálogo e da hospitalidade. A acolhida ou a hospitalidade, desde o ícone da visita divina a Abraão e Sara, narrada no capítulo 18 de Gênesis, se tornou o critério mínimo e concreto para a autenticidade da vida espiritual. Em Jesus, está hospitalidade ganha uma casa a partir da revelação da Trindade. Do interior da Trindade, nasce no Franciscanismo, a proposta da vida em fraternidade em chave de minoridade, forma concreta da kenosis de Cristo na ótica franciscana. A minoridade é, portanto, na vida franciscana a forma concreta do diálogo e da hospitalidade, itinerário capaz de formar um todo integral no qual se expressa a pluralidade na unidade, evidenciando a multipolaridade da ótica franciscana.

 

O quarto encontro de Francisco, será com o diferente, tendo como ícone o encontro o sultão Malek-al-Kamil, em meio a V Cruzada (1217-1221), na cidade de Damieta, Egito, em 1219, e que será o tema do próximo ponto de reflexão:

 

5. Sobre a matéria transfigurada: ou a iconografia franciscana do encontro entre Frei Francisco e o sultão Malek-al-Kamil no século XIII

 

Várias são as narrativas das Fontes Franciscanas sobre o encontro entre Frei Francisco e o sultão Malek-al-Kamil no século XIII. [15] Neste encontro [16], Francisco se deixou habitar pelo outro diferente, no âmbito intercultural, multiétnico e multirracial. Com diferentes objetivos e sob várias óticas, os relatos podem ser encontrados nos textos: de Tomás de Celano: Vida Primeira – Capítulo 10 – 57, 1-12; Vida Segunda – Capítulo 4 – 30, 1-17; Legenda para uso do coro – 8, 1-5; de Juliano de Spira: Vida de São Francisco, VII – 36, 1-10; de São Boaventura: Legenda Maior IX – 7, 1-6 e 8, 1-18; Legenda Menor 3, 9; outros textos: Legenda Perusina – 37, 1-11; Compilação de Assis 77, 1-5; Actus Beati Francisci et sociorum eius – 27, 1-24; I Fioretti di San Francesco – 24; Crônica de Jordão de Jano – 10; nos testemunhos menores: Carta de Jacques de Vitry e Crônica de Ernoul.

 

Pela leitura dessas fontes, percebe-se que, de maneira geral, Frei Francisco e Frei Iluminato, contra toda sorte, foram bem recebidos, em meio a guerra, na corte islâmica pelo sultão Malek-al-Kamil que o tratou com cordialidade e hospitalidade, diferentemente de como o teria tratado um “sultão sanguinário”, conforme o figurava o imaginário medieval. Esse encontro é um dos mais atestados historicamente e marcou profundamente a vida de Frei Francisco que, ao retornar à Itália, deixou transparecer nos seus escritos e na organização da Ordem o quanto esta experiência marcou a sua vida. Dois extratos do desses textos podem revelar algumas intuições sobre o influxo do contexto bélico e do encontro com o sultão nos Escritos [17] de Frei Francisco:

 

1. Regra Bulada III, aos frades que vão pelo mundo: 10 Aconselho, porém, admoesto e exorto meus frades no Senhor Jesus Cristo que, quando vão pelo mundo, não litiguem nem contendam com palavras (cfr. 2Tm 2,14), nem julguem os outros; 11 mas sejam amáveis, pacíficos e modestos, mansos e humildes, falando a todos honestamente, como convém.

 

2. Regra não Bulada XVI, aos frades que vão em missão entre os sarracenos: 5 Mas os frades que vão, podem comportar-se espiritualmente entre eles de dois modos. 6 Um modo é que não façam nem litígios nem contendas, mas estejam submetidos a toda criatura humana por Deus (1Pd 2,13) e confessem que são cristãos. 7 Outro modo é que, quando virem que agrada ao Senhor, anunciem a palavra de Deus, para que creiam em Deus onipotente, Pai e Filho e Espírito Santo, criador de tudo, no Filho redentor e salvador, e que sejam batizados e se tornem cristãos, porque quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus (cfr. Jo 3,5).

 

Não obstante o ensinamento exemplar de Francisco e as prescrições da Regra, “poucos anos depois da morte de Francisco, encontramos frades menores muito envolvidos com as cruzadas, a começar por Guilherme de la Cordelle, primeiro frade nomeado pregador de Cruzadas pelo Papa Gregório IX, em 1235. Outros nomes de destaque no século XIII são os de Gilberto de Tournai – nomeado mestre regente da escola franciscana de Paris, em 1259 – em cujas obras encontramos sermões aos cruzados e aos pregadores de Cruzadas, e o de Benedito de Alignamo – bispo de Marselha em 1228 que, logo depois, ingressou na Ordem Franciscana.” [18] Entretanto, também há exemplos positivos em relação à busca do diálogo entre os seguidores de Francisco, o primeiro o leigo franciscano Raimundo Lúlio (1232?-1315); o segundo Louis Massignon (1883-1962), membro da Ordem Franciscana Secular; e o terceiro Jean-Mohammed Abd-El-Jalil (1904-1979), frade marroquino convertido do Islamismo. [19]

 

Somam-se às narrativas das Fontes Franciscanas e aos Documentos Históricos, as Fontes Artísticas [20] das quais destacam-se:

 

1. Mestre de São Francisco Bardi, cerca de 1240, São Francisco e vinte histórias de sua vida, na Capela Bardi da Igreja de Santa Croce, Florença, com provável autoria de Coppo de Marcovaldo (1225-1276).

 

 (Foto: G. Pischel, Storia Universale dell’Arte, Vol. 2, Mondadori, Verona 1966 | Wikimedia Commons)

 

2. Giotto de Bondone (1267-1337), cerca de 1296-1304, A prova de fogo diante do Sultão, na Basílica Superior de São Francisco, Assis.

 

 (Foto: Wikimedia Commons)

 

3. Giotto de Bondone (1267-1337), cerca de 1325-1328, São Francisco diante do Sultão, Capela Bardi da Igreja de Santa Croce, Florença.

 

(Foto: www.santacroceopera.it)

 

4. Fra Angélico (1395-1455), cerca de 1429, São Francisco diante do Sultão Malek-al-Kamil, Museu Lindenau-Museum, Altenberg, Alemanha.

 

 (Foto: Wikimedia Commons)

 

5. Domenico Ghirlandaio (1449-1494), cerca de 1438-1485, Prova de fogo diante do Sultão, Capela Bardi, Igreja da Santa Croce, Florença, Itália.

 

(Foto: www.frammentiarte.it)

 

6. Nicolás Francés (1434-1468), cerca de 1445-1460, Retábulo das Vidas da Virgem e São Francisco, Museu Nacional do Prado, Madri, Espanha.

 

 (Foto: Museu do Prado | Espanha)

 

7. Benozzo Gozzoli (1420-1497), cerca de 1452, São Francisco de Assis: prova de fogo perante o Sultão, na Capela Absidal, São Francisco, Montefalco, Itália.

 

 (Foto: Wikimedia Commons)

 

8. Antônio Vivarini (1440-1480), cerca de 1415-1476, O milagre do fogo diante do sultão, em Gemäldegalerie, Berlin, Alemanha.

 

(Foto:  gallerix.org)

 

9. Anônimo, Iluminura, cerca de 1480, f.142, Francisco diante do Sultão, no manuscrito Vida e milagres de São Francisco de Assis, de São Boaventura da Biblioteca Nacional, Paris, França.

 

 (Foto: gallica.bnf.fr)

 

10. Gustave Doré, cerca 1877, Francisco e o Sultão, ilustração da obra História das Cruzadas de Joseph-François Michaud.

 

 

11. Laura Goeldin de Tiefenal, 2004, Ícone: Um encontro ao nível dos olhos, Estúdio das Clarissas de Jongny. Mosteiro Capuchinho de Saint Maurice, Suiça.

 

 (Foto: www.feinschwarz.net)

 

12. Robert Lentz, OFM, 2016, Ícone São Francisco e o Sultão.

 

 (Foto: www.espacofrater.com.br)

 

13. Marko Ivan Rupnik, 2009-2010, São Francisco anuncia o Evangelho ao Sultão, no Santuário de São Pio de Pietrelcina, San Giovanni Rotondo, Itália.

 

(Foto: www.centroaletti.com)

 

 

A partir das Fontes Franciscanas, Documentais e Artísticas, reafirmamos a importância da temática do diálogo e da hospitalidade na agenda contemporânea ao mesmo tempo que se constitui uma “ferida aberta” na memória franciscana e um desafio sempre presente, o que abre perspectiva para o último ponto da reflexão.

 

6. Sobre o olhar espiritual: ou a capacidade de integrar as antinomias

 

A exemplaridade de Frei Francisco desde o século XIII, é uma proposta que convoca, invoca e provoca a Igreja e a sociedade, mas, sobretudo à grande Família Franciscana, a ter um o olhar espiritual que acolha e integre todas as antinomias, as diferenças. Essa postura se caracteriza por atitudes que demonstrem a noção de pensamento incompleto, sistema aberto, olhar múltiplo e discernimento constante.

 

 

Mediante um sincero e honesto exame de consciência, transpassado pela Vida e Regra, as Ordens Franciscanas, são convidadas a responder os seguintes questionamentos: como as Ordens Franciscanas têm experenciado a dimensão do diálogo em todos os âmbitos da vida cósmica? Como estão as vivências de hospitalidade como valor humano, cristão e franciscano? E, a partir dessas respostas afirmar, com o magistério do Papa Francisco (1936-), “tudo está interligado” (Laudato Si’, 191), e trabalhar para a unidade e para a comunhão como sinais de uma vida espiritual autêntica e fecunda, portanto, cristãmente ética. [21]

 

Para concluir, soma-se às reflexões feitas até aqui, as palavras do franciscano secular, Thomas Merton (1915-1968), um dos maiores ativistas da paz no século XX, que afirmou, em 1960: temos aí a grande tentação da época presente, a universal infecção do fanatismo, a praga da intolerância, da prevenção e do ódio, que brota da natureza ferida do homem que tem medo de amar e não ousa ser uma pessoa. É sobretudo contra essa tentação que o cristão tem de lutar, trabalhando com incansável paciência e amor, em silêncio, com repetidos fracassos talvez, procurando incessantemente restaurar, por toda parte onde lhe for possível, e em primeiro lugar em si mesmo, a capacidade de amar e de compreender o que faz do homem a imagem viva de Deus. [22] E a palavra do mártir cisterciense, Christian de Chergé (1937-1996), o abade do filme Homens e Deuses, que diz: Deus não serve para nada se não ajuda os homens a viver em comum. [23] Enfim, com Frei Francisco, “vamos começar (…), pois até agora fizemos pouco ou nada”. [24]

 

Notas:

 

[1] SCHWARCZ, Lilia Moritz. Quando acaba o século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

[2] Cf. Documentário Fungos Fantásticos do diretor Louis Schwartzberg, 2019; HARAWAY, Donna. Quando as espécies se encontram. São Paulo: Ubu Editora, 2022 e SHELDRAKE, Merlin. A trama da vida – Como os fungos constroem o mundo. São Paulo: Ubu Editora, 2021.

[3] Cf. HARAWAY, Donna. Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuluceno: fazendo parentes. Artigo traduzido e publicado na Climacom, ano 3, n.5. Unicamp, 2016. Disponível em: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/antropoceno-capitaloceno-plantationoceno-chthuluceno-fazendo-parentes/. Acesso em 18 de setembro de 2022. Em torno do tema: LAMBERT, Leandra. “O tempo do qual a terra nos olha”: de refúgios, artes, narrativas e tecnologias no mundo sublunar. Revista Metamorfose, vol. 4, nº 4, jun de 2020, pgs. 48-66. Disponível aqui. Acesso em 18 de setembro de 2022.

[4] SILVA, Fernando Silva. Uma vida no Chthuluceno. Disponível aqui. Acesso em 18 de setembro de 2022.

[5] Cf. OLIVEIRA, Adriano Cézar de. Frei Francisco de Assis e a pregação de paz e não violência. Disponível aqui. Acesso em 18 de setembro de 2022.

[6] FRANCISCO, Papa. Discurso no encontro Economia de Francisco, no dia 24 de setembro de 2022. Disponível aqui. Acesso em 18 de setembro de 2022.

[7] Cf. Documento de Aparecida, 491-500.

[8] Cf. KOLLER, Felipe Sérgio. A linguagem simbólica em Marko Ivan Rupnik. Tese (doutorado) – Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2022, p. 137.

[9] Cf. ŠPIDLIK, Tomáš. Solov’ëv. In ŠPIDLIK, Tomáš; RUPNIK, Marko Ivan et al. Lezioni sulla divinoumanità. Roma: Lipa, 1995, p. 175-177 apud KOLLER, Felipe Sérgio. A linguagem simbólica em Marko Ivan Rupnik. Tese (doutorado) – Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2022, p. 137.

[10] KOLLER, Felipe Sérgio. A linguagem simbólica em Marko Ivan Rupnik. Tese (doutorado) – Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2022, p. 135.

[11] Cf. CROCOLI, Aldir. A conversão de Francisco de Assis: cronologia e sentido dos fatos, etapas do processo de conversão. 2ª edição revista e ampliada. Porto Alegre: ESTEF, 2019.

[12] E o próprio Senhor me levou para o meio deles, e fiz misericórdia com eles. (Testamento 2).

[13] Francisco não cita este encontro no Testamento, mas exorta a oração com as seguintes palavras: Nós te adoramos, Senhor Jesus Cristo, também em todas as tuas igrejas, que estão em todo o mundo, e te bendizemos, porque por tua santa cruz remiste o mundo. (Testamento 5).

[14] E depois que o Senhor me deu frades, ninguém me ensinava o que deveria fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou que deveria viver segundo a forma do santo Evangelho. (Testamento 13).

[15] Para análises diversas sobre o encontro: a) em língua portuguesa: VAUCHEZ, André. Francisco de Assis, Entre História e Memória. Tradução de José David Antunes e Noémia Lopes. Lisboa: Instituto Piaget, 2013, p. 117-133; MERCURI, Chiara. Francisco de Asís: la história negada. Ciudad Autonoma de Buenos Aires: Edhasa, 2017, p. 135-137; SABATIER, Paul. Vida de Francisco de Assis. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco/Instituto Franciscano de Antropologia, 2016, p. 217-227. MCMICHAEL, Steven J. Francisco e o encontro com o sultão (1219). In: ROBSON, Michael J. P (Org). Francisco de Assis: História e Herança. Aparecida: Editora Santuário, 2015, p. 141-154; Damieta e Greccio em FRUGONI, Chiara. Francisco de Assis, a vida de um homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011; MOSES, Paul. O Santo e o Sultão: as cruzadas, o Islã e a Missão de Paz de Francisco de Assis. São Paulo: Acatu, 2010; JEUSSET, Gwenolé. Encontro na outra margem: Francisco de Assis e os mulçumanos. Braga: Editorial Franciscana, 1995; BASETTI-SANI, Giulio. Sarracenos. In: Dicionário Franciscano. Petrópolis: Vozes/Cefepal, 1993; CROCOLI, Aldir. (Org.). Francisco de Assis, ecumenismo e o diálogo inter-religioso. Petrópolis: FFB, 2006; CROCOLI, Aldir. Francisco entre os mulçumanos: quais seus objetivos e seu êxito? Cadernos ESTEF, N° 63 2019/2, p. 37-54, ISSN 1806-7328, Porto Alegre. b) em outras línguas: DARDESS, George. In the Spirit of St. Francis and the Sultan. Catholics and Muslims Working Together for the Common Good. New York: Orbis Books, 2012; CORULÓN FERNÁNDEZ, Manuel. Francisco de Asís y el Sultán. Espana: Ediciones Franciscanas Arantzazu, 2017; TOLAN, John. Saint Francis and the Sultan. The Curious History of a Christian-Muslim Encounter. Reino Unido: Oxford University Press, 2009; ALFONSO MARINI, Storia contestata: Francesco d’Assisi e l’Islam. In: Franciscana, XIV, 2012; ALFONSO MARINI, Incontro sotto la tenda. Francesco d’Assisi, Malik al-Kamil, l’Islam. Monterotondo: Fuorilinea, 2015.

[16] A cena desse encontro ganhou espaço representativo na Arte, Literatura, Música e Cinema. Na Arte, foi imortalizada por Giotto di Bondone nos afrescos da Basílica de São Francisco em Assis, por volta de 1300. Na Literatura, por Dante Alighieri (1265-1321) em seus famosos versos da Divina Comédia: “E, pois, que pela sede de martírio, pregou Cristo e os que seguem à proterva, presença do Sultão em país sírio, porque de mais azeda já observa, a gente à fé, por não ficar em vão, ao fruto regressou da ítala erva”. Na Música, por Angelo Branduardi através da canção “Il sulltano di Babilonia e la prostituta”, no álbum Da Francesco a Francesco, em 2016. No cinema, pelo filme intitulado Sultan and the Saint, produzido pela Unity Productions Foundation, em 2016. Esses são alguns exemplos, uma pequena amostra, do conjunto de obras influenciadas. Cf. OLIVEIRA, Adriano Cézar de. Francisco de Assis: Diálogo, Hospitalidade e Ecologia. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2022, p. 39. Disponível aqui. Acesso em 18 de setembro de 2022.

[17] Cf. OLIVEIRA, Ênio Marcos de. Francisco de Assis e Malek-al-Kamil: um encontro de paz. Sobre a abertura dialogal em Francisco de Assis e a influência do encontro com o sultão em alguns de seus escritos. Juiz de Fora: Dissertação de Mestrado, 2008, p. 50-70 e, ainda, OLIVEIRA, Adriano Cézar de. Francisco de Assis: Diálogo, Hospitalidade e Ecologia. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2022, p. 39-42. Disponível aqui. Acesso em 18 de setembro de 2022.

[18] GOMES, Fábio Cesar. Introdução à Espiritualidade Franciscana: textos, contextos, atualidade, testemunhos. Petrópolis: Vozes, 2022, p. 146. Ainda sobre o assunto, conferir: COSTA, Sandro Roberto da. “Deus o quer!”, mas… e Francisco? Os franciscanos e a pregação das Cruzadas. In: SILVA, Andréia Cristina Lopes Frazão da, SILVA, Leila Rodrigues. (Org.) Atas da V Semana de Estudos Medievais do Programa de Estudos Medievais da UFRJ, 2003, p. 39-53.

[19] GOMES, Fábio Cesar. Introdução à Espiritualidade Franciscana: textos, contextos, atualidade, testemunhos. Petrópolis: Vozes, 2022, p. 137-149).

[20] Imagens apresentadas e comentadas em: OLIVEIRA, Adriano Cézar de. Francisco de Assis: Diálogo, Hospitalidade e Ecologia. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2022, p. 65-78. Disponível em: https://www.editorafi.org/ebook/541assis. Acesso em 18 de setembro de 2022.

[21] A caridade, a misericórdia, o acolhimento do outro, uma existência livre de qualquer egocentrismo e etnocentrismo, idolatria da sua própria cultura e história, uma mentalidade de pertença a uma comunidade, lugar de expressão da vida como comunhão – são todos sinais evidentes da vida espiritual. (…) Quanto mais conseguimos manifestar, realmente, a vida espiritual, superando essa mentalidade de ordem natural, tanto mais a nossa vida será uma contínua revelação do outro. Na medida em que a nossa consciência viver mais profundamente enraizada em Cristo, na mesma medida, o nosso agir e o nosso modo de ser o demonstrarão. RUPNIK, Marko Ivan. Segundo o Espírito: a teologia espiritual no caminho com a Igreja do Papa Francisco. Brasília: Edições CNBB, 2019, p. 109.

[22] MERTON, Thomas. Questões Abertas. Rio de Janeiro: Editora Agir, 1963, p. 153.

[23] TEIXEIRA, Faustino. Buscadores cristãos no diálogo com o Islã. São Paulo: Paulus, 2014, p. 16.

[24] CELANO, Tomas. Vida Primeira, 103, 6.

Fonte: ihu.unisinos.br

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