Educação: A que se destina e em que sentido nos interpela?

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Introdução

A respeito do termo educação, cada um de nós já traz consigo um conjunto memorável de aprendizados, de questões, de saberes, de práticas e de experiências desenvolvidas. Todavia, a que se destina e em que sentido a missão da educação nos interpela?

Asseguram alguns historiadores1 que a educação não foi inventada pelos gregos. A educação é contemporânea ao aparecimento das primeiras experiências humanas individuais e da vida em grupo. É contemporânea ao desenvolvimento da linguagem, das atividades laborais, da arte, da religiosidade, entre outras práticas humanas. Por ser inerente à formação e aos aprendizados de cada ser humano, a educação veio se delineando, ao longo da história, numa expressiva variedade de pressupostos teóricos, de delineamentos metodológicos, de tensões, de conflitos, de ideologias, de erros e acertos, de descobertas e avanços.

“A Ordem dos Frades Menores, por sua parte, quase desde suas origens, reconheceu que sua vocação essencialmente evangelizadora exigia dela ocupar-se também da tarefa educativa. Atividade que se concretizou, de uma maneira muito especial, nas Universidades e, depois, nas chamadas terras de missão.”2. E, neste atual momento de 2022, para quais escolhas e práticas a educação nos mobiliza a empreender?

A Educação como tema privilegiado por três Campanhas da Fraternidade

Desde meados da década de 60 (séc. XX), a educação esteve já por duas vezes (1982 e 1998) entre os temas contemplados pela CNBB à promoção da Campanha da Fraternidade. À luz do lema “A verdade vos libertará”, a Campanha da Fraternidade de 1982 tinha como principal objetivo mobilizar a Igreja e a sociedade a criar condições para a prática de uma educação libertadora, a serviço da construção de uma sociedade fraterna. Inspirada no lema “A serviço da vida e da esperança”, a Campanha da Fraternidade de 1998 visava disseminar a educação como caminho à realização humana, à vivência em comunidade, ao exercício da cidadania e à promoção de ações para a erradicação do analfabetismo no Brasil.

Em 2022, a Campanha da Fraternidade privilegia pela terceira vez a temática da Educação com o lema “Fala com sabedoria, ensina com amor.” (Pr 31,26). Alguns excertos do texto-base3 dessa atual Campanha nos auxiliam a identificar aspectos não só basilares da educação em si, mas também apelos da Igreja enquanto missão a realizar:

1 “A realidade da educação nos interpela e exige profunda conversão de todos. Verdadeira mudança de mentalidade, reorientação da vida, revisão das atitudes e busca de um caminho que promova o desenvolvimento pessoal integral, a formação para vida fraterna e para a cidadania.” (CF-2022, Texto-Base, n. 5).

2 “A educação é um indispensável serviço à vida. Ela nos ajuda a crescer na vivência do amor, do cuidado e da fraternidade.” (CF-2022, Texto-Base, n. 6).

3 “Educação não é condicionamento ou adestramento. É conduzir e acompanhar a pessoa para sair do não saber, rumo à consciência de si mesma e do mundo em que vive. É tornar a pessoa consciente, para que se torne sempre mais sujeito de seus sentimentos, pensamentos e ações.” (CF-2022, Texto-Base, n. 22).

4 “Educar, antes de dar lições, é aprender com as lições cotidianas e com as crises.” (CF-2022, Texto-Base, n. 34).

5 “O projeto de vida de sociedade pode colocar em seu núcleo central a pessoa humana, a cooperação e a superação das desigualdades. Dessa forma, o projeto de vida não é algo que se revela somente no exercício de autoconhecimento, mas também na relação com o outro, com as demandas da sociedade, sempre em espírito de fraternidade e serviço.” (CF-2022, Texto-Base, n. 38).

6 “Educar é humanizar. A educação é um ato de amor e esperança no ser humano.” (CF-2022, Texto-Base, n. 69).

7 “A educação, precisamente porque tem por objetivo tornar a pessoa mais humana, só pode realizar-se autenticamente em um contexto relacional e comunitário.” (CF-2022, Texto-Base, n. 167).

8 “Toda proposta educativa tem subjacente uma concepção do ser humano, da cultura, da sociedade e da história. […] A educação que parte de uma antropologia cristã também considera o fim último da pessoa: conhecer e amar a Deus no tempo e na eternidade, e os irmãos e irmãs por meio da fraternidade. A educação não é só integral no sentido temporal, mas eterno. (CF-2022, Texto-Base, n. 169).

9 “Educar para o humanismo solidário implica, também, trabalhar por uma verdadeira inclusão, considerando o que é próprio de cada cultura e de cada contexto, sempre com o olhar cuidadoso para as gerações futuras.” (CF-2022, Texto-Base, n. 177).

10 “Educar com sabedoria e amor é estimular o cuidado pela vida, desde a concepção, passando pelo fim natural, até a eternidade.” (CF-2022, Texto-Base, n. 221).

11 “A humanização de uma sociedade passa também pelo modo de lidar com a fragilidade, a morte e o luto. […] Olhar a educação à luz da fragilidade e da morte tão próxima significa perguntar o que é que estamos fazendo com a vida, a morte e o luto.” (CF-2022, Texto-Base, n. 248).

12 “Não há dúvidas de que a qualidade da educação depende da participação de todos os atores envolvidos em um clima de apoio e solidariedade.” (CF-2022, Texto-Base, n. 268).

A educação é, segundo estes 12 excertos, uma constante necessidade do ser humano em qualquer momento, etapa de sua efêmera, mas sagrada existência. A educação é uma atividade humana sumamente complexa, repleta de pressupostos, de personagens interdependentes e também de riscos. Um desses riscos consiste na tendência do ser humano de se eximir de escutar devidamente o seu semelhante. “[…] estamos a perder a capacidade de ouvir a pessoa que temos à nossa frente, tanto na teia normal das relações cotidianas como nos debates sobre os assuntos mais importantes da convivência civil.”4.

A Missão de educar para a Fraternidade e o Humanismo Solidário

Cada etapa da história da educação está articulada ao nosso presente e, por isso, ajuda-nos a refletir sobre as mais diversas questões e problemáticas do tempo presente. Não obstante acontecimentos tais como a tragédia que abalou Petrópolis (RJ) ao final da tarde de 15 de fevereiro último, a percepção da missão de educar para a Fraternidade e ao Humanismo Solidário também depende de fatores, tais como:

– a ideia de que de que o ser humano “[…] está se fazendo continuamente”5;
– a compreensão cristã e franciscana da criação6;
– a finalidade da educação conforme a LDB/967;
– a memória de que “a fraternidade intuída e vivida por Francisco de Assis não é só humana, mas inclusive cósmica: ela se estende a todas as criaturas.”8.
– o alcance de uma convivência fraterna, alimentada pela cultura do diálogo, pela globalização da esperança, pela viabilidade da inclusão, por relações que compõem uma comunidade viva, interdependente, vinculada a um destino comum9;
– a aspiração de se alcançar um olhar mais amplo em relação à instauração de um novo modelo ético-social, capaz de abranger parcelas cada vez maiores da humanidade, mobilizando-as a contribuir na promoção da paz, da justiça e da solidariedade;
– a imperiosa necessidade de se contrapor ao cenário atual, multifacetado e em constante mudança, atravessado por intolerâncias de naturezas diversas, por múltiplas crises (econômicas, financeiras, políticas, democráticas, ambientais, demográficas e migratórias), pelo terrorismo, pelo aumento da miséria, do desemprego e das desigualdades sociais, por ataques irracionais a provocar instabilidades emocionais e sentimentos de ódio etc.;
– o desenvolvimento de atividades educativas voltadas à promoção de redes de cooperação, à instauração de uma cultura solidária junto às atuais gerações escolares e universitárias, de modo a contrapor ao individualismo, à ideologia do conflito e à relativização dos princípios religiosos;
– a sensibilização de todas as pessoas da sociedade para o apreço do verdadeiro, do bom, do belo e do desenvolvimento integral da pessoa humana.

Cada um dos aprendizados, dos saberes, das práticas e das experiências sobre educação que nos acompanham são, por assim dizer, importantíssimos ao propósito ampliar lastros e práticas em prol de uma vida fraterna, solidária e feliz. Tanto a educação acadêmica como a educação não-formal precisam se alimentar da articulação de saberes interdisciplinares, oriundos da História, da Religião, da Pedagogia, da Biologia, da Ecologia, da Arte, da Linguística, da Matemática, da Política, da Economia, da Filosofia, da Geografia, do Direito, das culturas, das relações sociais, do senso comum. Educação essa capaz de se servir da sabedoria dos Pais e dos Avós, dos Santos e Santas. Do contrário, a educação jamais chegará ao comprometimento de todos nós, membros itinerantes e convivas nesta Aldeia terrena.

A pessoa revela-se não como um ser solitário, autossuficiente nem absoluto, mas como um centro ou um núcleo de relações com o mundo, os seres humanos, o Transcendente e consigo mesmo. Estas relações se interagem e se integram na promoção do crescimento do ser humano. […] Francisco de Assis, a partir desta perspectiva, é um modelo de integração consigo mesmo e com os outros. De fato, a forte experiência de Deus como Pai e Sumo Bem o levou a uma atitude de agradecimento e de louvor ao Criador por suas maravilhas e o fez irmão de todos os homens e de todas as criaturas10

Para uma cifra significativa de pessoas, a vida fraterna não passa de comodismos lamentáveis, de experiências sofríveis, de relações tóxicas alimentadas por carências e inseguranças. A missão de educar para a Fraternidade e ao Humanismo Solidário denota um conjunto de escolhas que precisamos fazer, principalmente em favor dos que vivem nas periferias11 das pessoas menos assistidas, dos sem teto, dos famintos e dos abandonados. “O ser humano contemporâneo experimentou que o que acontece numa parte do mundo pode ter consequências noutras, e que ninguém pode, a priori, sentir-se seguro num mundo onde há sofrimento e miséria.”12

Educar para a Fraternidade e o Humanismo Solidário é uma missão muito digna e sagrada que o Altíssimo Deus sempre de novo nos confia. Que não nos falte motivações existenciais, eclesiais13 e franciscanas para tanto! Que não nos falte ousadia, comprometimento, atitude dialógica, prudência e amor capaz de gestos supremos (Cf. Jo, 15,13) em favor dos mais necessitados e sofredores!

Frei Claudino Gilz

1 Cf. GAUTHIER, Clermont e TARDIF, Maurice. A pedagogia: teorias e práticas da antiguidade aos nossos dias. Tradução de Lucy Magalhães. Petrópolis: Vozes, 2010. CAMBI, Franco. História da Pedagogia. Tradução de Álvaro Lorencini. São Paulo: UNESP, 1999; NEVES, Joana. História Geral: a construção de um mundo globalizado. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2005; SAVIANI, Demerval. História das ideias pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2007.
2 ORDEM DOS FRADES MENORES – Secretariado para a Evangelização (coord.). Ide e ensinai: Diretrizes Gerais para a Educação Franciscana, Roma, 2009, p. 7.
3 CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Campanha da Fraternidade 2022: texto-base, n.º 167. Brasília: Edições CNBB, 2021.
4 PAPA FRANCISCO. Escutar com o ouvido do coração: mensagem para o 56.º dia mundial das comunicações sociais. Roma, 24/01/2022.
5 BOFF, Leonardo. Tempo de transcendência: o ser humano como um projeto infinito. Rio de Janeiro: Sextante/ Lumensana Publicações Eletrônicas, 2000, p. 6.
6 “Se nos aproximarmos da natureza e do meio ambiente sem esta abertura para a admiração e o encanto, se deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo, então as nossas atitudes serão as do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limite aos seus interesses imediatos.” (PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si: sobre o cuidado da casa comum, n. 11. Roma: maio de 2015).
7 “[…] A educação […], inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” (LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL, n.º 9394 de 20/12/1996.
8 ORDEM DOS FRADES MENORES. O grito da terra e o grito dos pobres – um subsídio da Ordem para o cuidado da Criação. Tradutor desconhecido. Roma: OFM Communications Office, 2016, p. 20.
9 Cf. CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA. Educar ao humanismo solidário – para construir uma ‘civilização do amor’: 50 anos após a Populorum Progressio. Roma: Institutos de Estudo, 2017.
10 ORDEM DOS FRADES MENORES – Secretariado para a Evangelização (coord.). Ide e ensinai: Diretrizes Gerais para a Educação Franciscana, Roma, 2009, p. 21-22.
11 “A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada [cf. Parábola do Bom Samaritano, Lucas 10:25-37] define todos os projetos econômicos, políticos, sociais e religiosos. Dia a dia enfrentamos a opção de ser bons samaritanos ou viandantes indiferentes que passam ao largo.” (PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica Fratelli Tutti – sobre a fraternidade e a amizade social (n. 69). Assis (Itália), 3 de outubro de 2020).
12 CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA. Educar ao humanismo solidário – para construir uma ‘civilização do amor’: 50 anos após a Populorum Progressio. Roma: Institutos de Estudo, 2017, n. 28-29.
13 “Saiamos! […] prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.” (PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium aos fiéis leigos sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, n. 49, Roma 24/12/2013.

Fonte: Província Franciscana Imaculada Conceição do Brasil

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